Olhando para trás
A leitura de um livrinho do naturalista inglês Charles Bunbury, que visitou o Rio em 1833 e fez preciosas observações sobre e a natureza e a sociedade, faz pensar e comparar com os dias atuais.
Depois de afirmar que “nada pode ser mais belo do que a baía”, diz do Rio de Janeiro: “suas ruas são em geral, estreitas, muito sujas e cheias de abomináveis odores; as calçadas são horrivelmente toscas e parecem como se nunca tivessem sido consertadas”.
Os “abomináveis odores” deviam vir dos esgotos das casas que, naquele tempo, eram juntados durante todo o dia em barris e, à noite, eram despejados pelos escravos, nas valas no meio das ruas. Nas ruas Uruguaiana e do Riachuelo havia valas que iam desaguar no mangue da Cidade Nova, depois todo aterrado e drenado pelo Canal do Mangue que até hoje continua conduzindo esgotos para a Baía de Guanabara.
Em Niterói o serviço de coleta era feito por uma “Empreza de Remoção de Matérias Fecais” e consta que o Colégio Salesiano tinha um sistema próprio, utilizando carroças compostas de grandes cilindros de ferro, de tração bovina, que levavam tudo para entornar perto da Ponta da Armação. Imaginem a sujeira e o mau cheiro pelo caminho! Neste ponto, para nós, a coisa melhorou bastante.
Mas a Baía de Guanabara, na época, dava conta e digeria bem o volume de esgotos que recebia. Hoje já não se pode dizer o mesmo.
Adiante no livro, Bunbury descreve o que chamaríamos de poluição sonora: “Os negros carregam todos os fardos na cabeça e, enquanto estão assim ocupados, vão dando um gemido alto, monótono e compassado que, quando estão muitos a trabalhar juntos, se ouve bem longe e é até assustador para um estrangeiro. Esta música tristonha combinada com o tagarelar incessante e a vociferação da população, o barulho dos carros sobre o calçamento irregular, o horrível ranger das rodas dos carros de boi, o latido de inúmeros cães, o toque dos sinos e as freqüentes descargas de fogos de artifício, tornam o Rio o lugar mais barulhento que conheço.”
E depois ele continua: “Não conheço cidade mais desagradável de andar a pé do que o Rio. A cada instante encontra-se um bando de negros arrastando uma carroça pesadamente carregada ou um trenó que, ocupando toda a extensão de calçada, nos obriga a ir para o meio da rua; depois as rodas de uma carruagem ou um carro de boi vêm para cima da calçada e nos comprimem contra a parede, ou um cavalo aguardando o seu cavaleiro, à porta de alguma casa, faz com que tenhamos de dar uma volta para evitar suas patas.” Mudaram a época, o cenário e os atores, mas o enredo é o mesmo....
Talvez nosso visitante inglês fosse mal humorado e preconceituoso, mas a descrição que fez das nossas frutas vale a pena ser apreciada. Diz que as laranjas do Rio são as melhores que já provou e fala da tangerina como uma espécie minúscula de laranja, com um sabor singularmente delicado. Diz que os abacaxis são abundantes e baratos, mas não encontrou nenhum igual “ao das nossas estufas inglesas”. Considerou o maracujá um dos melhores frutos do Brasil e disse que o jambo tem semelhança às pétalas de rosa, tanto em gosto quanto em cheiro e o caju tem o “feitio de uma pêra, com a pele macia e brilhante, amarela com manchas avermelhadas, como algumas espécies de maçã; seu cheiro também é como o da maçã; seu gosto é bem ácido e não muito agradável”. “Dizem que as mangas do Rio são inferiores às da Índia: acho-as muito inferiores à um bom pêssego maduro”. E continua: “ O gosto é difícil de descrever: um pouco semelhante ao damasco, com uma pujança especial e um sabor mais ou menos como de terebentina, o qual, no entanto, não é bastante forte para ser desagradável. A goiaba desapontou-me mais do que qualquer outra coisa e é, de fato, penso, uma fruta muito ruim”.
Definitivamente, os sentidos do nosso observador eram críticos severos. Só livraram as laranjas, os maracujás e a beleza da nossa Baía e Guanabara.