Texto Completo - A Mudança de Época e o Contexto Global Cambiante.doc
A MUDANÇA DE ÉPOCA E O CONTEXTO GLOBAL CAMBIANTE
Implicações para a mudança institucional em organizações de desenvolvimento
José de Souza Silva
Gerente da Rede Novo Paradigma para a Inovação Institucional na América Latina
São José, Costa Rica; 2004
INTRODUCAO
“Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas”
(Indígenas Aymara, Região Andina)
Nunca tantos líderes e gerentes estiveram tão pressionados para mudar, sem entender “por que” devem mudar, o “que” deve ser mudado e para benefício de “quem” a mudança deve ocorrer. Perplexos, muitos se refugiam nas perguntas do tipo “como” mudar, transformando-se em reféns de propostas instrumentais, como planejamento estratégico, qualidade total e reengenharia. Suas organizações realizam mudanças em busca de sustentabilidade, sem compreender a gênese de sua vulnerabilidade nem como esta se manifesta. A maioria se satisfaz com um novo documento, sem construir um novo comportamento a partir de uma visão de mundo inspiradora de novos modos de interpretação e de intervenção. Tudo por apoiarem-se numa falsa premissa - “a organização vai mal, precisa mudar”, que gera falsas promessas e soluções inadequadas.
Para inspirar e orientar a mudança institucional, a Rede “Novo Paradigma”, do International Service for National Agricultural Research (ISNAR), interpreta que a humanidade experimenta uma mudança de época (De Souza Silva et al. 2001a). Sob esta premissa, as atuais mudanças globais não pertencem à época do industrialismo; elas forjam uma nova época. Os efeitos cruzados de três revoluções—tecnológica, econômica e sociocultural—estão criando um mundo qualitativamente diferente, mas não necessariamente melhor. Por isso, estamos todos vulneráveis: do cidadão ao Planeta. Varia apenas o grau de vulnerabilidade entre diferentes continentes, nações, setores, organizações, comunidades, grupos sociais e indivíduos.
O fenômeno da mudança de época explica a crise de percepção que fragmenta a consistência interna—coerência—de modos de interpretação e a gênese da vulnerabilidade institucional que fragmenta a consistência externa—correspondência—entre modos de intervenção e o contexto de sua aplicação e implicações. A vulnerabilidade institucional—crise de legitimidade das “regras do jogo” do desenvolvimento—é um problema social porque afeta todas as organizações que interessam à sociedade. A premissa da mudança de época inspira e orienta processos de mudança institucional, porque exerce uma pressão criativa para mudar nossa forma de interpretar a realidade para compreendê-la e de intervir para transformá-la. Uma mudança de época também muda a natureza de nossas perguntas, problemas e respostas.
Este capítulo: (i) chama atenção para a relevância dos conceitos de coerência e correspondência nos processos de mudança institucional; (ii) interpreta a gênese da atual mudança de época; (iii) identifica os processos globais de mudança que são os epicentros da atual vulnerabilidade institucional; e (iv) articula três conjuntos de premissas para a construção de cenários orientadores da mudança institucional, a partir das visões de mundo em conflito—mecânica, econômica e contextual—que competem para influenciar a dimensão institucional (“regras do jogo”) do desenvolvimento da época emergente. O capítulo conclui que, no contexto das contradições da atual mudança de época e das características da época emergente, os processos de mudança institucional devem necessariamente construir novos modos de interpretação—nova coerência—e novos modos de intervenção—nova correspondência.
MUDANÇA INSTITUCIONAL
A eterna busca por coerência e correspondência
Quando poucas organizações estão vulneráveis, este é seu problema particular; quando a maioria das organizações está vulnerável, este é um problema social—de interesse geral da sociedade. Numa mudança de época, todos estamos vulneráveis: do cidadão ao Planeta. Hoje, esta vulnerabilidade generalizada emerge como um problema social global, porque fragmenta a consistência interna dos modos de interpretação e a consistência externa dos modos de intervenção, reduzindo, respectivamente, a coerência das “regras do jogo” das organizações e a correspondência entre estas regras e as “regras do jogo” do desenvolvimento vigentes no contexto onde atuam.
A dimensão institucional do desenvolvimento corresponde às suas “regras do jogo” (De Souza Silva et al. 2001a). Assim, a vulnerabilidade institucional ocorre quando o conjunto dominante de “regras do jogo” do desenvolvimento (visão de mundo, valores, crenças, premissas, conceitos, enfoques, teorias, modelos, paradigmas, objetivos, políticas, prioridades, estratégias, etc.) entra numa crise de legitimidade, perdendo sua vigência por causa das conseqüências negativas do desenvolvimento praticado sob sua influência.
Estas “regras do jogo” constroem uma coerência contextual que serve de referência para as organizações, cuja coerência organizacional deve estar em correspondência com a coerência de seu contexto relevante. Assim, a coerência diz respeito ao grau de consistência (interna) de um conjunto de regras; enquanto a correspondência diz respeito ao grau de consistência (externa) entre dois conjuntos de regras. Por exemplo, as “regras do jogo” de uma organização de desenvolvimento podem alcançar um alto grau de coerência (consistência interna) e apresentar um baixo grau de correspondência (consistência externa) com o conjunto das “regras do jogo” do desenvolvimento do contexto onde atua. Cabe aos líderes, gerentes, estrategistas e facilitadores da mudança institucional construir uma coerência gerencial—conjunto de “regras do jogo” da gestão—que lhes permita participar de forma relevante na interpretação e transformação da coerência organizacional e da coerência contextual, para aumentar a correspondência entre ambas.
Ironicamente, a maioria das mudanças se fundamenta na premissa do mau desempenho das organizações, levando os gerentes a dar mais importância aos diagnósticos internos do que às interpretações do contexto cambiante. Nada mais equivocado no contexto atual. Uma premissa introspectiva revela a organização como o único (ou mais importante) epicentro dos problemas e desafios que molda o seu desempenho. Isso negligencia “por que” e “como” o contexto cambiante afeta o desempenho de todas as organizações. Uma premissa interna para orientar a mudança não nos permite compreender por que tantas organizações estão vulneráveis, e não apenas a nossa. Numa mudança de época, a premissa para a mudança institucional deve ser externa—derivada do contexto cambiante—pois, neste caso, as causas inspiradoras e as referências orientadoras mais relevantes para a iniciativa estão fora e não dentro das organizações. Isso não significa que os diagnósticos internos não são importantes, senão que, em termos de anterioridade, as interpretações do contexto cambiante devem vir primeiro, pois daí se deriva à correspondência que necessitamos construir entre a coerência contextual de nosso entorno relevante e nossa coerência organizacional.
As “regras do jogo” de uma organização necessitam estar conectadas a um conjunto relevante de “regras do jogo” do desenvolvimento do contexto onde atua. Quanto maior é o número de conexões relevantes entre a coerência organizacional e a coerência contextual, maior é o grau de correspondência entre ambos. Quando o contexto muda a ponto de transformar suas “regras do jogo”, as regras das organizações perdem seu potencial para orientar aos atores sociais, econômicos, políticos e institucionais do desenvolvimento. Isso representa uma crise de legitimidade que, se é irreversível, determina a obsolescência das “regras do jogo” das organizações. Isso é o que vem ocorrendo globalmente desde a década de 60. Por isso, as organizações devem assumir uma premissa externa para a mudança interna; primeiro interpretando as mudanças do contexto, cujas “regras do jogo” estão sendo transformadas. Sob esta nova compreensão, deve-se negociar um novo conjunto de regras internas em correspondência com um ou mais subconjuntos de regras do conjunto geral das novas “regras do jogo” do desenvolvimento do contexto relevante.
Segundo estudos realizados pela Rede “Novo Paradigma”, do Serviço Internacional para a Pesquisa Agrícola Nacional (ISNAR) (De Souza Silva et al. 2001a;), a humanidade está experimentando uma mudança de época que fragmenta modos de interpretação e de intervenção (Castro et al. 2001; De Souza Silva et al. 2001b; Lima et al. 2001; Mato et al. 2001; Salazar et al. 2001). Isso exige mudança institucional—mudanças nas “regras do jogo” —em todas as nações e organizações. Por isso, os conceitos de coerência e correspondência são muito relevantes neste momento. É que a mudança institucional implica a busca de uma nova coerência para nossos modos de interpretação e de uma nova correspondência para nossos modos de intervenção.
UMA ÉPOCA DE MUDANÇAS OU UMA MUDANÇA DE ÉPOCA?
A hora não é de limpar senão de mudar de lentes
Toda época histórica constrói uma espécie de lentes culturais através das quais os atores sociais interpretam a realidade para compreendê-la e intervêm sobre ela para transformá-la. Neste sentido, a realidade é aquilo que nosso método de observação—visão de mundo—nos permite perceber. Em si mesmas, as lentes (uma espécie de óculos) não determinam tudo que se pode ver; os diferentes contextos históricos, materiais e sociais dos usuários se combinam para definir a textura final de suas lentes individuais e coletivas. As crenças—premissas—que articulam os ingredientes das lentes influenciam onde olhar, o que indagar, como buscar, o que valorizar, com que comprometer-se, etc. O resultado é uma visão de mundo cuja prevalência impõe um alto grau de convergência às características dos modos de interpretação e de intervenção de uma época, o que também se reflete na maioria dos processos de mudança institucional das organizações.
Dentro do horizonte temporal de uma época histórica, a natureza das mudanças institucionais é influenciada principalmente por uma visão de mundo dominante. Se esta visão é questionada, e chega a se transformar rápida e profundamente, a humanidade enfrenta uma crise de percepção, porque seu método de observação dominante se torna obsoleto. Na prática, uma época histórica gera um conjunto de “artefatos” (valores, crenças, conceitos, premissas, teorias, modelos, paradigmas, etc.) para “limpar” as lentes, sempre que algumas manchas (dúvidas, problemas, desafios, etc.) limitam nossa compreensão da realidade. Numa mudança de época, estes artefatos perdem sua capacidade de limpar as manchas emergentes, que vão se acumulando até o ponto de impedir uma leitura satisfatória da realidade cambiante.
Assim, numa mudança de época, tanto nossos modos de interpretação quanto nossos modos de intervenção têm reduzido drasticamente seu grau de coerência interna, perdendo com isso sua correspondência com as novas realidades do contexto cambiante, que emergem sob novas “regras do jogo” para o desenvolvimento. Atualmente, muitos atores sociais continuam tentando “limpar as lentes”, com os artefatos da época ainda vigente—a época do industrialismo—mas já em declínio irreversível, quando uma mudança de época implica em “mudar de lentes”. Mas, como saber que estamos numa mudança de época?
Gênese da atual mudança de época
Uma época histórica se caracteriza principalmente por um sistema de idéias, sistema de técnicas e institucionalidade (conjunto de “regras do jogo” e de mecanismos institucionais para sua implementação), que são dominantes sobre outros sistemas de idéias, sistemas de técnicas e institucionalidades (Ellul 1964; Hobsbawm 1969; Castells 1996). Por exemplo, a época histórica do industrialismo caracteriza-se por um sistema de idéias de natureza racionalista, que está sintetizado na metáfora de uma máquina para interpretar o mundo e atuar sobre ele. Seu sistema de técnicas é integrado pelas tecnologias materiais—mecânicas, químicas e elétricas—do paradigma tecnológico do desenvolvimento industrial. E sua institucionalidade está estabelecida em torno ao Estado-nação, cujo grau de soberania e de autonomia lhe permite a criação e gestão das `regras nacionais' do jogo de acumulação de capital, derivadas da Revolução Industrial (Hobsbawm 1984), e do jogo da democracia política, derivadas da Revolução Francesa (Hobsbawm 1962).
As épocas históricas não são eternas. A partir de certas condições históricas, o sistema de idéias, sistema de técnicas e institucionalidade dominantes são questionados por causa das conseqüências negativas do desenvolvimento praticado sob sua influência, e terminam por enfrentar uma crise de legitimidade que determina o ocaso de uma época e o alvorecer de outra. Quando e por que isso ocorre? De acordo com o Sociólogo Espanhol Manuel Castells, uma época histórica muda quando se transformam de forma qualitativa e simultânea as relações de produção, relações de poder, experiência humana e cultura dominantes (Castells 1996, 1997, 1998). No século XVIII, a racionalidade orgânica-espiritual da época do agrarianismo foi subordinada à racionalidade instrumental da época do industrialismo. Desde a década de 60, as “regras do jogo” da época do industrialismo estão sendo questionadas de forma inexorável, pela vulnerabilidade gerada como conseqüência de sua prática. Neste sentido, as mudanças globais em marcha não pertencem à época do industrialismo; elas estão forjando uma nova época. Quais são os epicentros destas transformações globais? São estas transformações convergentes entre si, ou existem divergências e contradições? Como estas mudanças afetam nossos modos de interpretação e intervenção?
A revolução tecnológica, a mudança de época e a visão cibernética de mundo
A partir da metade dos anos 70, uma revolução em torno à tecnologia da informação (principalmente a partir da invenção do microchip) passou a influenciar outras revoluções tecnológicas (engenharia genética, nanotecnologia, robótica, novos materiais, etc.) e a penetrar formas e meios de comunicação. A dimensão microeletrônica e a natureza digital desta revolução comprimem o tempo histórico e desmaterializam o espaço geográfico. Pela primeira vez na história, a informação passa a ser simultaneamente insumo e produto, e se transformou numa mercadoria, dando origem à indústria da informação. Para os privilegiados que têm acesso a esta tecnologia, a facilidade de acesso e para o intercâmbio de informação é sem precedentes.
As mudanças derivadas desta revolução—a formação de redes virtuais, a integração eletrônica de formas (texto, som e imagem) e meios de comunicação, a proposta de uma agricultura de precisão, a invenção de espaços inteligentes (edifícios, fábricas, residências e escritórios cujas funções básicas são gerenciadas por computadores independentes de operadores humanos), a invenção de “armas inteligentes”, o livro virtual e o “terrorismo cibernético” —não pertencem à época do industrialismo. Estas mudanças estão forjando uma nova época, a partir de uma visão cibernética de mundo (herdada da visão mecânica da época industrial), agora mais sofisticada pelos aportes da tecnologia da informação, Teoria do Caos, Geometria Fractal, etc. A racionalidade instrumental dessa visão de mundo não reconhece a relevância—e eventualmente a existência—das dimensões humana, social e ecológica da realidade (Miller 1985; Joy 2000; De Souza Silva et al. 2001a). Sob esta visão:
O mundo é percebido como uma máquina complexa e sofisticada—um sistema de informação auto-regulado, sem sentimentos, onde a razão mecânica prevalece sobre a emoção humana. Sem espaço para valores morais nem princípios éticos, este reinado da racionalização é constituído por “peças” da engrenagem que permite funcionar a máquina, para a qual a história não é relevante, porque o futuro está associado à idéia de progresso, que se baseia na crença de um crescimento linear, gradual, cumulativo, ilimitado e bom para todos.
O contexto corresponde a uma “realidade objetiva”, que existe independente da nossa percepção, decisões e ações; nos resta apenas descobrir e controlar esta realidade, para melhor explorá-la em benefício de todos.
O objetivo superior do desenvolvimento é a máxima eficiência produtiva, onde os modos de intervenção, incluindo o modo de geração de conhecimento, são centrados na oferta, sem compromisso com a história nem com o contexto.
Os problemas e desafios são reduzidos à sua dimensão técnica de tal forma que sua solução requer apenas responder a perguntas do tipo “como fazer” e “que pode” ser feito, sem incluir questões éticas nem políticas sobre o “por que” fazer, “que deve” ser feito e “para quem” fazer.
As organizações são percebidas como “máquinas” de produzir bens e serviços, onde todos os insumos são considerados apenas como “recursos” (recursos naturais, recursos financeiros, etc.), e tudo que dela sai é considerado como “produto”.
Assim, os seres humanos são reduzidos à mera condição de “recursos humanos”, verdadeiros robôs biológicos capazes de executar tarefas, onde replicam receitas e seguem fórmulas previamente fabricadas.
A tecnociência—resultado da fusão entre a ciência moderna e a tecnologia moderna—se rege pelos ditames da racionalização, que inclui uma busca frenética por quantificação, precisão, controle e predição: ciência para a eficiência.
A revolução econômica, a mudança de época e a visão mercadológica de mundo
A partir do final da década dos 70 e início dos anos 80, teve início uma revolução econômica que revelou o esgotamento do regime de acumulação de capital da época do industrialismo. A economia produtiva, dependente de fatores tangíveis—terra, capital e trabalho—e praticada sob as “regras nacionais” do Estado-nação, entrou em crise generalizada por perder sua vitalidade como fonte de criação de riqueza para satisfazer a tendência expansionista do sistema capitalista. Os ideólogos, filósofos e estrategistas do sistema capitalista olharam ao seu redor e encontraram condições favoráveis para estabelecer um novo regime de acumulação de capital, que agora assume uma natureza corporativa, transnacional, global e “informacional” (Castells 1996).
As mudanças derivadas desta revolução, que integram a hoje chamada globalização econômica, tais como liberalização, privatização, desregulamentação, ajuste estrutural, reforma econômica, revisão do papel do Estado, modernização do setor público, reconversão produtiva, flexibilidade laboral, dolarização e fundos competitivos não pertencem à época do industrialismo. Estas mudanças forjam uma nova época, a partir de uma visão mercadológica de mundo (inspirada no Darwinismo), agora mais sofisticada pelos aportes da tecnologia da informação, Teoria do Caos, Geometria Fractal, etc. A racionalidade econômica dessa visão de mundo faz prevalecer as transações comerciais sobre as relações humanas, sociais e ambientais (Röling e Maarleveld 1999; De Souza Silva et al. 2001a). Sob esta visão:
O mundo é percebido como um mercado, sem sociedades nem cidadãos, onde os seres humanos cumprem apenas papéis econômicos: provedores, produtores, processadores, vendedores, clientes, consumidores, competidores, investidores, comerciantes, etc.
A história não é relevante, porque o passado não volta e o futuro ainda não chegou. Nesta realidade não se fala de sociedades, apenas de economias; os espaços públicos são recriados em espaços privados (dentro de centros comerciais) para domesticar potenciais consumidores.
O contexto relevante é o representado pelo mercado, que é assumido como uma “realidade objetiva” e independente de nossa percepção, já que é regida por suas próprias leis “naturais” —oferta e demanda.
O desenvolvimento é reduzido ao crescimento econômico e ao desenvolvimento tecnológico; a dimensão distributiva de seus benefícios é uma função do mercado, o juiz que premia os competitivos e condena os não competitivos, pois o objetivo é a acumulação e o critério crítico é o lucro máximo.
Os modos de intervenção, incluindo o de geração de conhecimento, são centrados na demanda, comprometidos apenas com sinais emitidos pelo mercado, que são suficientes para representar todos os anseios da sociedade, que é constituída de indivíduos egoístas tentando apenas maximizar seus interesses particulares.
A existência é uma luta pela sobrevivência, onde os vencedores são os competidores-gladiadores; a solidariedade é uma característica dos débeis.
As organizações são percebidas como “provedores” de bens e serviços, onde tudo que é consumido é percebido como “capital” (capital natural, capital financeiro, capital social, etc.), e tudo que dela sai é transformado numa mercadoria.
Assim, os seres humanos são reduzidos à mera condição de “capital” humano, ou intelectual, uma “coisa” mais no mundo das mercadorias.
A tecnociência é praticada sob os conceitos de qualidade e de competitividade, pois sua função superior é contribuir para a acumulação: ciência para o lucro.
A revolução cultural, a mudança de época e a visão contextual de mundo
A partir dos anos 60, vários movimentos sociais e culturais passaram a desafiar os pilares da civilização ocidental e os valores da sociedade industrial de consumo. Na prática, cada movimento questionou alguma dimensão da realidade, que é relevante para o futuro da humanidade (Castells 1996, 1997, 1998). De diferentes formas, os movimentos feministas, indigenistas, ambientalistas e pelos direitos humanos, justiça étnica, equidade social, participação da sociedade civil, etc., denunciaram: (i) a inconsistência do desenvolvimento derivado das “regras do jogo” do industrialismo; (ii) a conseqüente vulnerabilidade da humanidade e das demais formas de vida no Planeta; e, (iii) a necessidade de novas premissas para a prática sistêmica de um desenvolvimento que seja apropriado no presente e sustentável com relação ao compromisso com as gerações futuras.
As mudanças globais que têm origem nesta revolução, como as questões associadas às dimensões humana, social e ecológica do desenvolvimento, não pertencem à época do industrialismo; elas estão forjando uma nova época, a partir de uma visão contextual de mundo, que se fortalece com os avanços do pensamento complexo (Morin 1984) e da ecologia profunda (Capra 1982, 1996). A racionalidade ecológica (Röling 2001), é inclusiva do bem-estar (inclusive well-being) de todas as formas de vida na Terra (Bawden 2001), o que estabelece a cultura do cuidado (culture of care) (Busch 2001), a cultura do importar-se com a existência de “outros” Sob esta visão:
O mundo é percebido como uma trama de relações entre diferentes formas de vida—um sistema dinâmico e com múltiplas dimensões (espacial, histórica, ecológica, social, econômica, política, institucional, ética, estética, espiritual, etc.), funções e contradições.
A história é relevante para compreender a realidade cambiante, porque passado, presente e futuro estão inevitavelmente interconectados.
O contexto inclui, mas transcende o mercado, pois é constituído pela diversidade biológica, socioeconômica y cultural do Planeta. A realidade é socialmente construída e pode ser socialmente transformada pela percepção e ação coletivas.
A prática sistêmica do desenvolvimento não assume a forma de um modelo universal, pois contextos particulares requerem modos de intervenção que incorporem como referência uma parte substantiva das realidades, necessidades e aspirações locais.
A contextualização dos modos de intervenção é uma premissa da sustentabilidade, enquanto sua universalização é uma regra da vulnerabilidade.
O desenvolvimento é concebido como um espaço para o encontro entre sociedade, natureza e cultura, uma espécie de Ágora grega—um espaço público onde diferentes atores com diferentes valores, interesses e compromissos debatem e negociam critérios/regras para a gestão democrática das transformações necessárias para o seu desenvolvimento e dos conflitos próprios deste tipo de processo.
As organizações são sistemas sociotécnicos complexos, dinâmicos e com múltiplas dimensões, funções e contradições, e são mais bem compreendidas e gerenciadas como facilitadores de mudança e desenvolvimento.
Os seres humanos são cidadãs e cidadãos, cuja imaginação os transforma em “talentos humanos” capazes de criar mais além de suas experiências e “conhecimentos” prévios.
A tecnociência combina os critérios de eficiência, competitividade e qualidade com os critérios de equidade e de sustentabilidade, solidarizando-se e comprometendo-se com a existência de todas as formas de vida na Terra: ciência com consciência.
Estas revoluções revelam conjuntos de premissas, interesses e compromissos, que moldam diferentes visões de mundo, cuja adoção sugere cenários futuros absolutamente diferentes entre si. Inclusive, entender estas revoluções e suas respectivas visões de mundo, como fontes distintas de mudanças globais, nem sempre compatíveis entre si, permite compreender as ações e reações de certos atores globais e locais. Por exemplo, fica mais fácil compreender porque os Estados Unidos se contradizem quando tentam promover o desenvolvimento sustentável, mas não assinam a Convenção da Biodiversidade nem concordam com o Protocolo de Kioto. Ambos tratados multilaterais têm sua origem nas premissas, interesses e compromissos associados à visão contextual de mundo, que emerge da revolução sociocultural. A posição de não adotá-los, por parte dos Estados Unidos, resulta da pressão de suas corporações transnacionais, cujos interesses e compromissos globais estão associados ao novo regime de acumulação de capital, que se origina na revolução econômica e propõe uma visão econômica de mundo onde a metáfora do mercado nos revela um mundo como um mercado, onde as dimensões humanas, sociais e ambientais são inconveniências para a tendência expansionista do capitalismo, cujo objetivo superior—acumular—não inclui essas dimensões.
As visões de mundo que competem entre si para prevalecer na época emergente não existem em seu estado puro, nem haverá uma única visão de mundo dominando completamente o processo de desenvolvimento. O que ocorrerá será a prevalência do conjunto de premissas de uma delas, que influenciará a co-existência das demais visões de mundo, cujas contribuições estarão limitadas por sua posição subordinada nesta hierarquia de valores, que determina uma trama complexa de relações de poder. A tensão gerada pelas relações assimétricas de poder resultantes de tal esquema de dominação e subordinação de valores, interesses e compromissos será a principal fonte de contradições da época emergente e, portanto, do seu futuro declínio.
Evidências da atual mudança de época
Se a humanidade experimenta uma mudança de época, é possível identificar transformações qualitativas e simultâneas nas relações de produção, relações de poder, experiência humana e cultura dominantes da época do industrialismo, bem como a emergência de novas—e necessariamente contraditórias—relações de produção, relações de poder, experiência humana e cultura. São estas transformações que estão fraturando a dominação do sistema de idéias, sistema de técnicas e institucionalidade da época do industrialismo e forjando uma nova época—do informacionalismo, segundo Castells (1996), cujo sistema de idéias, sistema de técnicas e institucionalidade dominantes estão sendo forjados em meio às contradições (De Souza Silva et al. 2001) próprias deste tipo de momento histórico.
Mudanças qualitativas na dimensão produtiva
A economia emergente é comandada pela produtividade e a competitividade; a produtividade será derivada da inovação tecnológica, enquanto a competitividade será derivada da inovação institucional. No futuro, os produtos, processos e serviços mais relevantes serão os intensivos de conhecimento, aumentando a necessidade de criar uma maior capacidade cultural para usar a tecnologia da informação. Todavia, é preciso distinguir a economia produtiva da época do industrialismo da economia imaterial da época emergente. Por exemplo, para a economia produtiva, a infra-estrutura mais importante é o transporte, enquanto para a economia digital emergente a infra-estrutura mais relevante é a da comunicação (Castells 1996; Bell 1999).
A revolução em torno à tecnologia da informação altera de forma estrutural as relações de produção: (i) a economia produtiva do industrialismo é dependente de fatores tangíveis—terra, capital e trabalho, enquanto a economia imaterial emergente depende de um fator intangível—informação; (ii) o trabalhador manual da economia produtiva tem sido excessivamente explorado, inspirando a utopia marxista, enquanto o trabalhador do conhecimento—analista simbólico—da economia virtual é bem pago, porque o conhecimento é a nova fonte de poder e riqueza (Reich 1993); (iii) os capitalistas da economia produtiva são pessoas com uma Pátria e se guiam pelas `regras nacionais' do seu Estado-nação, enquanto os capitalistas da economia emergente são corporações impessoais, com interesses globais e ambições expansionistas, que não conseguem ser leais nem mesmo a seu país de origem, porque são apátridas; e, (iv) o contrato social entre o capital e o trabalho foi desfeito (Rifkin 1996), para permitir a mobilidade global do capital e estabelecer a vulnerabilidade local do trabalho (Forrester 1997), sob o eufemismo de flexibilidade laboral. Até a agricultura está sendo reestruturada (Bonnano et al. 1994); para refletir o caráter corporativo e transnacional da nova ordem econômica mundial, onde as cadeias produtivas estão sendo transnacionalizadas tanto quanto possível. No futuro próximo será difícil falar de “economia nacional” e de produtos made in... qualquer país.
Pela primeira vez na história da humanidade, está sendo criada uma economia onde o rico não necessita do pobre (Galeano 1998). Está em formação o Quarto Mundo: o mundo dos desnecessários, nos países desenvolvidos e em desenvolvimento (De Souza Silva et al. 2001a), que são os desconectados da era do acesso (Rifkin 2000). Obviamente, esta mudança de época ainda não representa a ruptura do sistema capitalista. A nova ordem econômica mundial mantém o caráter capitalista, apesar de que o capitalismo já não será o mesmo. Antes acusado de exploração excessiva da mão-de-obra, o capitalismo emergente já está sendo acusado de exclusão social (Dupas 1998). O capitalismo emergente é de natureza corporativa, transnacional, global e “informacional” (Castells 1996).
Finalmente, é importante compreender que o capitalismo global está penetrando novas esferas da existência humana. No princípio o capitalismo controlava os meios de produção; depois passou a controlar a oferta dos produtos comerciais; e agora está controlando a demanda: os consumidores. A humanidade está assistindo uma das incursões mais assustadoras do capitalismo, cujas prioridades mais recentes inclui a mercantilização das emoções e experiências humanas, onde os bens culturais assumem uma relevância sem precedentes para a acumulação de capital. Por isso as antigas leis de propriedade industrial estão sendo atualizadas e transcendidas pelo esforço para o estabelecimento da propriedade intelectual, gerando pálidas discussões éticas, que fracassam frente ao eclipse da moralidade determinado pela ascensão da ideologia do mercado (Busch 2001). Com isso, o capitalismo determina o fim da era da posse e o início da era do acesso (Rifkin 2000).
Mudanças qualitativas na dimensão do poder
O exemplo mais impressionante de mudanças qualitativas nas relações de poder é o caso do Estado-nação, cuja soberania e autonomia estão sendo reduzidas em termos quantitativos e principalmente estão sendo qualitativamente alteradas para viabilizar politicamente a nova ordem econômica mundial. As políticas e as decisões mais relevantes para o futuro das sociedades nacionais não são formuladas nem tomadas por autoridades nacionais dentro do seu próprio território geográfico. Agora estes processos ocorrem nos espaços transnacionais de mecanismos supra-nacionais, suas conseqüências são materializadas em acordos multilaterais e suas regras são implementadas por agencias multilaterais e organizações internacionais. Neste contexto, as `regras nacionais' do Estado-nação foram (re)definidas como “barreiras”, cujo significado simbólico negativo é usado para convencer-nos que é preciso derrubá-las. Por isso, as condições locais que privilegiam as `regras nacionais' do desenvolvimento da época do industrialismo estão sendo debilitadas ou destruídas, ao mesmo tempo em que as condições nacionais para a penetração e estabelecimento das `regras transnacionais' do desenvolvimento da época emergente estão sendo construídas.
A crise do Estado-nação representa também a crise da democracia representativa, pois sua prática assume a existência de uma entidade soberana e autônoma para gerenciá-la. Por isso, a democracia representativa já não consegue representar a maioria da sociedade, e está se transformando velozmente na arte de enganar o povo: os eleitos não decidem e os que decidem não são eleitos. O povo nunca elegeu os que dirigem as corporações transnacionais, Organização Mundial do Comércio, Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), etc., cujo funcionamento ocorre longe do escrutínio público e sem a participação da cidadania. Mas aí se formulam as políticas e se tomam as decisões que já estão transformando em maior ou menor grau o futuro das sociedades.
O “voto” como símbolo da democracia representativa já está desmoralizado, porque agora simboliza apenas uma “democracia de um dia” —dia da eleição, que permite aos políticos dizer tudo o que a maioria quer ouvir, mas sem a obrigação de cumprir nenhuma das promessas feitas, já que o futuro é decidido principalmente fora e não dentro do País. É lógico que isso não seria possível sem a conivência interna de parte das elites nacionais, que assim procede para ter acesso a benefícios e privilégios que são negados à maioria. Como conseqüência, a sociedade civil está reagindo, de formas e em graus variados, em diferentes países do mundo. Mas suas redes de democracia (Busch 2000) ainda não logram competir com as redes autocráticas do poder corporativo transnacional, por onde fluem capital, informação e decisões que estão forjando a nova ordem econômica e política mundial (Korten 1996).
As redes do poder corporativo global são as redes da indiferença ao sofrimento humano, às desigualdades sociais e ao desafio ecológico que ameaça a extinção da humanidade e do Planeta. Nestas redes de poder e riqueza, o individualismo exacerbado, o egoísmo insensível e a agressividade competitiva são os valores privilegiados pela “arena” econômica e tecnológica global. A solidariedade é um atributo dos débeis.
Hoje, já não são os exércitos estrangeiros que invadem e subordinam nações e organizações. Na atual mudança de época, este papel cabe ao Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e seus congêneres regionais e contrapartes nacionais. Basta ler os jornais diários da maioria dos países em desenvolvimento, para encontrar manchetes sobre como estes agentes internacionais das mudanças nacionais estão exigindo a destruição das “regras nacionais” que privilegiam o regime de acumulação da época do industrialismo e impondo as novas condições que privilegiam o estabelecimento das novas “regras transnacionais” para a penetração dos interesses das corporações e investidores globais (Barnet e Cavanagh 1995). E o fazem sem o menor constrangimento, reorganizando os sistemas produtivo, econômico, financeiro e institucional desses países de tal forma que a nova ordem econômica e política mundial possa ser estabelecida e legitimada. Obviamente, isso não ocorre sem contradições nem oposição (Mander e Goldsmith 1996).
Mudanças qualitativas na experiência humana
As diferentes formas através das quais vivemos a experiência humana—a família, sexualidade, relações interpessoais e sociais, relações com a natureza, etc. — estão se transformando numa velocidade vertiginosa, com implicações inclusive psíquicas para os indivíduos, grupos sociais e até sociedades inteiras (Lash 1986).
Por um lado, com os avanços revolucionários na tecnologia da informação, o tempo histórico está sendo comprimido e vários tipos de fronteiras—incluindo as geográficas, políticas, ideológicas e administrativas—estão sendo extintas. O ser humano está perplexo com a redução drástica da importância da relação tempo-espaço, alterando qualitativamente nossa compreensão e uso de conceitos como distância, fronteira, tempo, controle, etc.
Este eclipse eletrônico da dimensão tempo-espaço cria o Oitavo Continente do Planeta: um continente digital, onde INTERNET é o seu principal porto virtual na era do acesso. Neste continente virtual o tempo mecânico não conta, o espaço geográfico desaparece e as relações sociais perdem sua relevância para as relações cibernéticas, onde as pessoas se relacionam mais com as máquinas do que consigo e com “outros”. Por isso, o conceito de rede assume conseqüências práticas para a nova morfologia social das sociedades do futuro (Castells 1996).
Por outro lado, cada movimento social e cultural, dos iniciados nos anos 60, gerou mudanças que podem alterar vários aspectos relevantes da experiência humana. Por exemplo, o movimento feminista questionou a visão masculina do desenvolvimento e desafiou a autoridade Patriarcal dominante, abrindo um espaço para a questão de gênero, cujo avanço transformará vários aspectos de nossa experiência humana. Quanto mais avançam os esforços rumo à prática de um desenvolvimento sistêmico, mais mudarão nossos modos de produção, padrões de consumo e estilos de vida, porque os atuais não são sustentáveis. Por causa de nosso modelo de desenvolvimento, a natureza já não é natural, da água que poluímos ao clima que alteramos e às espécies que extinguimos, todo o Planeta é hoje dependente da percepção, decisões e ações da espécie humana; por isso, estes são problemas antropogênicos (Roling 2000).
A heterossexualidade não será o único tipo de relação socialmente e legalmente aceitável, como indicam as sociedades que aceitam socialmente e reconhecem legalmente o casamento entre representantes do mesmo sexo biológico. O conceito de família também está sob diferentes tipos de pressão: (i) em alguns países o número de divórcios anuais começa a superar o número de casamentos; (ii) cresce o número de jovens que têm dúvida se devem casar e se devem ter filhos; (iii) ao contrário dos hippies, que propuseram fazer amor sem ter filhos, a engenharia genética agora nos promete a possibilidade de ter filhos sem fazer amor; e, (iv) muitos pais separam seus filhos em quartos individuais, equipados com televisores, equipamentos de som, computadores e jogos eletrônicos, que lhes permitem atuar como unidades independentes de consumo, mas que reduzem os espaços e momentos para a socialização familiar.
Finalmente, as denúncias sobre as diferentes formas de vulnerabilidade do Planeta atingiram também à participação da ciência no processo de desenvolvimento. O questionamento crescente e generalizado à ciência, praticada sob a influência da tradição filosófica conhecida como Positivismo, está estimulando o desenvolvimento de novos paradigmas que mudarão nossa percepção de nós mesmos e a forma como nos relacionamos com o restante da natureza. O século XXI será pródigo na geração de novos conceitos, teorias, enfoques, modelos e paradigmas, que transformarão nossos modos de interpretação e intervenção.
Mudanças qualitativas na dimensão cultural
As mudanças em marcha na dimensão cultural são diversas e controvertidas, podendo dissolver fronteiras e divisões entre diferentes culturas, promover o encontro enriquecedor entre várias culturas e até criar uma rejeição cultural pelos aspectos da atual globalização que tenta homogeneizar certas culturas (Rifkin 2000; Warnier 2000). Por restrições de espaço, destacamos apenas a dimensão que cruza estas possibilidades, que é a formação de uma cultura da realidade virtual, em torno à qual nasce a geração ponto-com.
Sob a invasão da lógica digital, feita possível pela penetração da tecnologia da informação em todos os meios e formas de comunicação, deixa de ter importância o fato de que a Terra já foi considerada plana (percepção antiga) e que passou a ser percebida como redonda (percepção vigente); para a geração ponto-com, o mundo está se transformando numa tela gigante (percepção programada). Paulatinamente, a humanidade está sendo culturalmente induzida a acreditar que o real é aquilo que chega através dos vários tipos de telas, já existentes e a inventar. Os pais, os mestres e os anciões estão sendo substituídos como os intermediários desejáveis entre a realidade real e as crianças e os adolescentes. Agora, o computador, a televisão e outros meios de comunicação são os intermediários quase-oficiais, livres para destruir antigos e criar novos símbolos e identidades. As crianças da geração ponto-com estão sendo introduzidas à realidade virtual antes de “debutar” de forma apropriada na realidade real. Seu mundo está sendo perigosamente reduzido a uma tela gigante e mágica da qual é difícil desconectar-se. Em síntese, o que não se manifeste em alguma tela não existe, não é verdade ou não é importante.
A humanidade experimenta a formação de uma cultura visual global, onde tudo se transforma em mercadoria cultural, das viagens do papa às campanhas eleitorais, viagens turísticas, esportes extremos e invasões militares dos Estados Unidos. Tudo é vendido, comprado e assistido como espetáculo: a religião-espetáculo, a política-espetáculo, o turismo-espetáculo, o esporte-espetáculo e a guerra-espetáculo. Se Karl Marx fosse vivo, ele diria que a televisão substituiu a igreja como o espaço onde os ideólogos do capitalismo transnacional ministram o novo ópio do povo. Com a penetração irreversível da tecnologia da informação nas diferentes formas e meios de comunicação, não se pode evitar a sensação de impotência da maioria, que em nossa sociedade está perdendo o controle sobre os eventos que lhe interessa ver ou conhecer.
Neste contexto, será difícil distinguir se a realidade real é a que nos deparamos diariamente nos campos e cidades, ou se é a (hyper reality) que nos sufoca nas inúmeras telas que já congestionam os espaços de nossas casas, escritórios, restaurantes, centros comerciais, bares etc. A geração ponto-com emergente corre o risco de pensar que já não será necessário caminhar para conhecer o mundo e transformá-lo. Estes integrantes da espécie Homo informaticus correm o risco de concluir que é possível mudar o mundo apenas com mensagens eletrônicas, o que será conveniente para os poderosos, que já não necessitariam enfrentar as forças vivas da sociedade, apenas mensagens eletrônicas às quais não têm a obrigação de reagir.
Está em franca expansão uma massiva série de canais virtuais de comunicação global, que fundem e codificam imagens, sons e símbolos escritos. Sua abrangência e penetração ignoram eletronicamente os mais diferentes tipos de fronteiras. Assumindo propósitos geralmente comerciais, a globalização da mídia apresenta uma tendência à desregulamentação, onde as mega-fusões consolidam uma ordem mundial comercial de comunicação, que reduz a esfera pública e cria uma cultura da diversão que não é necessariamente compatível com a ordem democrática.
A minoria mundial que tem acesso à INTERNET e ao World Wide Web (www) pode ter acesso a incontáveis bases de dados e integrar-se a certos grupos de usuários globais. Isso tanto cria possibilidades como dilemas. Por um lado, não se pode negar a facilidade de acesso à informação e de expressão cultural, que cresce e deve ser aproveitada. Mas isso é apenas para uma minoria, pois mais de 2/3 da humanidade já integra a classe dos desconectados da era do acesso (Rifkin 2000).
Por outro lado, não se pode evitar a sensação de que o crescimento da mídia global é exagerado e indesejável. A expansão deste poder virtual ocorre mais para satisfazer os interesses comerciais de corporações transnacionais do que para integrar sociedades locais. Neste sentido, a humanidade caminha rumo à cultura da realidade virtual, onde os donos dos meios de comunicação por onde fluem as imagens globalizadas, definirão os símbolos e identidades que prevalecerão. Para os donos desse tipo de poder, algumas realidades serão mais relevantes do que outras, e as imagens desta realidade constituirão uma realidade virtual que pode prevalecer sobre a realidade real dos menos poderosos e dos excluídos.
Apesar de todas as resistências à transnacionalização da realidade virtual, a globalização digital continuará. A humanidade tem experimentado várias ondas de globalização através de sua história (Held et al. 1999) onde, por exemplo, as grandes religiões do mundo demonstraram sua força através das idéias e crenças que cruzaram continentes e transformaram sociedades. Mas algumas tendências não desejadas da globalização podem ser revertidas. Se uma tendência é socialmente construída pela percepção, decisões e ações de certos atores reais, qualquer tendência pode ser socialmente transformada pela ação coletiva dos atores sociais insatisfeitos com suas características e impactos.
Assim, a fragmentação de nossos modos de interpretação e intervenção não é uma surpresa. As mudanças globais em curso estão transformando o sistema de idéias, sistema de técnicas e institucionalidade da época do industrialismo, ao mesmo tempo em que forjam uma nova época, gerando convergências, divergências, conflitos e contradições, cujos efeitos combinados resultam numa crise de legitimidade das “regras do jogo” do desenvolvimento sob o paradigma do industrialismo. Daí surge a vulnerabilidade institucional que nos pressiona a realizar mudanças em busca de sustentabilidade. Por isso, a mudança institucional é necessária para construir uma nova coerência e uma nova correspondência. Mas devemos considerar os processos globais de mudança que emanam dos diferentes epicentros da vulnerabilidade global representados pelas três revoluções discutidas aqui—tecnológica, econômica e sociocultural. Estes processos não representam um conjunto harmonioso de tendências rumo a um futuro um melhor, pois eles refletem valores, interesses e compromissos convergentes, divergentes e contraditórios. Os líderes, gerentes, estrategistas e facilitadores da mudança institucional devem negociar decisões políticas e éticas, antes das técnicas, sobre que coerência organizacional construir em correspondência com qual coerência contextual.
PROCESSOS GLOBAIS DE MUDANÇA
Que lance a primeira pedra, aquele que não estiver vulnerável
Imaginemos um cego que se movimenta com o apoio de um guia confiável. Neste caso, o guia sintetiza e traduz um conjunto de referências que permitem ao cego interpretar sua realidade para atuar sobre ela. Que tal se um dia o guia surpreende ao cego, soltando sua mão, pedindo-lhe desculpas e avisando-lhe que não pode continuar sendo o seu guia? Que aconteceria com o cego cujo antigo guia se foi e o próximo ainda não chegou? E se isso ocorresse quando o contexto onde o cego vive estivesse mudando? Primeiro o cego ficaria aturdido com esta situação totalmente nova—estaria perplexo. Depois ele se sentiria angustiado pela ausência de seu sistema de referência—estaria inseguro. Em seguida, ele se surpreenderia encontrando novos sinais no lugar de antigas referências—estaria desorientado. A partir daí, ele se encontraria exposto a um mundo totalmente novo, que ele não entende e para o qual não estaria necessariamente preparado—estaria vulnerável. Esta é precisamente a situação da humanidade no contexto da atual mudança de época.
Os guias confiáveis da época do industrialismo estão soltando nossas mãos em velocidade tão vertiginosa que nem conseguem nos informar que já não podem continuar sendo nossos guias. Por isso, estamos todos vulneráveis, do cidadão ao Planeta. Aqui, identificamos quatro dos processos globais de mudanças que estão emitindo novos sinais, nem todos coerentes entre si, no lugar de nossas antigas referências: a formação de um novo regime de acumulação de capital, o estabelecimento de um Estado-rede supranacional, a criação de uma sociedade civil global e a construção de um novo modo de geração de conhecimento.
Emergência de um novo regime de acumulação de capital
A atual revolução econômica representa uma iniciativa semi-estruturada do sistema capitalista para superar a crise do regime de acumulação de capital da época do industrialismo. Frente à impossibilidade do sistema continuar saciando sua fome insaciável de acumular de forma crescente e permanente, seus guardiões—o Grupo dos sete (G-7), seus filósofos, ideólogos e estrategistas e suas instituições internacionais e nacionais associadas—começaram um diagnóstico da crise do sistema, analisaram as possibilidades concretas disponíveis para propor um novo regime de acumulação de capital e passaram a tomar decisões e a realizar ações para estabelecê-lo. Uma forma de reconhecer o regime de acumulação do capitalismo global emergente é comparar suas características com as do antigo regime do capitalismo industrial:
O antigo regime tem como base a economia produtiva, cujo desempenho é dependente de fatores tangíveis—terra, capital e trabalho. Em contraste, o regime emergente acumula principalmente a partir de uma economia imaterial que se consolida em torno a um fator intangível—informação.
A infra-estrutura mais importante para a economia produtiva da época histórica do industrialismo é o transporte, enquanto para a economia virtual do regime de acumulação da época emergente o mais relevante é a infra-estrutura de comunicação, que supera barreiras geográficas e comprime a dimensão temporal, conectando em tempo real atores e localidades distantes.
Os capitalistas importantes para o capitalismo industrial são principalmente indivíduos com uma Pátria definida. Os capitalistas da economia digital emergente são corporações transnacionais, impessoais e apátridas, que não conseguem ser leais nem mesmo a seus países de origem, porque seus interesses e ambições podem estar vinculados a qualquer lugar do mundo.
As “regras do jogo” da acumulação do capitalismo industrial são organizadas em torno ao Estado-nação, que assume a responsabilidade de implementá-las, aperfeiçoá-las e protegê-las. As “regras do jogo” da acumulação do capitalismo informacional emergente são de caráter transnacional, e sua implementação, aperfeiçoamento e proteção ficam a cargo de mecanismos supranacionais e acordos e agências multilaterais. Por isso, as “regras nacionais” estão sendo redefinidas como “barreiras”, que têm um significado negativo, para justificar sua derrubada através de políticas e estratégias de liberalização, desregulamentação, privatização, fundos competitivos, etc.
No regime de acumulação do industrialismo, existe um contrato social entre o capital e o trabalho que os vincula inexoravelmente. O regime de acumulação emergente requer a mobilidade do capital e a vulnerabilidade do trabalho. O eufemismo da flexibilidade laboral está sendo institucionalizado para permitir ao empregador contratar e despedir quando e na forma que quiser. Com isso, o capital passa a ser livre para voar e pousar apenas onde houver mãos e mentes dóceis e baratas. Os novos capitalistas corporativos querem ter seus direitos assegurados em qualquer parte do globo, mas sem compromisso ou responsabilidade para com a dimensão humana, social ou ecológica.
O regime de acumulação do industrialismo foi acusado de explorar em excesso ao trabalho, enquanto o regime emergente está sendo acusado de exclusão social. Por suas características construídas a partir da mais sofisticada tecnologia da informação, a nova economia imaterial ignora a existência de todos os atores, organizações, nações e continentes (África) que não participam de suas redes virtuais de poder por onde fluem capital, informação e decisões. Nos países desenvolvidos e em desenvolvimento, muitos estão desconectados do futuro na era do acesso. Eles integram o Quarto Mundo—o mundo dos desnecessários.
A emergência deste regime, cuja fonte de acumulação é a economia imaterial baseada na tecnologia da informação explica porque atores com interesses globais e ambições expansionistas estão estabelecendo uma ordem econômica e política de natureza corporativa, transnacional e informacional. Eles usam poder econômico, tecnológico, político, diplomático e (eventualmente) militar para criar novos valores, símbolos e identidades que desqualificam, debilitam e (eventualmente) destroem os fatores, aspectos e condições que privilegiam nossas “regras nacionais”. Seu objetivo é estabelecer e legitimar os fatores, aspectos e condições que viabilizam as “regras transnacionais” que atendem seus interesses corporativos globais.
A formação de blocos econômicos regionais é uma estratégia para aumentar a capacidade de competir de alguns atores que reconhecem sua debilidade individual para sobreviver na nova “arena” econômica e tecnológica global. Uma das realidades emergentes é a penetração excessiva e deletéria de interesses privados particulares no setor público, que já não representa um espaço verdadeiramente público. Muitas privatizações estão ocorrendo como uma forma de desnacionalização que mais parece (re)colonização por outros meios, como foi o caso da (pseudo)privatização da TELEBRAS no Brasil, que não pode ser estatal brasileira, mas pode ser comprada por estatais de ex-colonizadores da América Latina.
Emergência de um Estado-rede supranacional para gerenciar a nova ordem mundial
Um regime de acumulação de capital não se auto-implementa. Faz-se necessário estabelecer um conjunto de mecanismos institucionais para legitimar as “regras do jogo” que o constituem e um conjunto de atores institucionais para executar sua implementação. Além disso, todo regime de acumulação de capital tem uma institucionalidade que lhe corresponde. No caso do regime da época do industrialismo, o Estado-nação é o ator institucional em função do qual sua institucionalidade foi construída e funciona. No contexto da atual mudança de época, o Estado-nação está sendo debilitado em muitas de suas antigas funções vinculadas ao regime de acumulação do industrialismo. Simultaneamente, este ator está sendo fortalecido para cumprir novas funções associadas ao estabelecimento e legitimação de uma nova ordem mundial que, com a fragmentação da União Soviética e o desmoronamento do bloco Socialista do Leste Europeu, assumiu não apenas um caráter corporativo, transnacional e informacional, mas também uma abrangência global.
A institucionalidade emergente para viabilizar o regime de acumulação de capital da nova época histórica está assumindo a configuração de um Estado-rede supranacional (Held 1995; Castells 1996). É uma espécie de governo mundial sem presidente nem eleições, constituindo uma das maiores contradições da nova época histórica, onde continua sendo necessário manter o discurso da democracia representativa, enquanto as corporações transnacionais estão estabelecendo uma das estruturas menos democráticas da história da humanidade.
Segundo Busch (2000), uma corporação transnacional é hoje a versão moderna da Monarquia absolutista, cuja estrutura impessoal não consegue mais do que ser indiferente à dimensão humana, social e ecológica. À semelhança do que acontece quando uma pedra é lançada na água, este Estado-rede supranacional está configurado como um conjunto de círculos concêntricos de poder com funções interdependentes. O cerne deste conjunto de círculos é constituído pelo G-7, cujos governos passam a representar mais os interesses corporativos de suas respectivas corporações transnacionais do que os interesses de suas sociedades. Eles são os guardiões e maiores beneficiários do sistema capitalista, cujo objetivo superior—a acumulação do capital—não inclui gente. Este objetivo é mantido a qualquer custo, apesar da insatisfação crescente dentro das sociedades desenvolvidas e em desenvolvimento.
Um dos círculos de poder da nova institucionalidade é o círculo das regras do jogo. Este é constituído por acordos multilaterais como a União Européia, o NAFTA, o MERCOSUL, a futura Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e o Acordo Multilateral sobre Inversões (AMI), e por mecanismos supranacionais como a Organização Mundial de Comércio (OMC) e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), que articulam o maior conjunto das novas “regras do jogo” da acumulação e do desenvolvimento.
Também existe o círculo do poder financeiro, constituído por agências multilaterais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial (BM) e os bancos regionais de desenvolvimento como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o caso das Américas, que se conectam diretamente com suas contrapartes nacionais: Ministérios de Fazenda, Conselhos Monetários Nacionais e Bancos Centrais dos países.
O círculo do poder institucional inclui as agências que integram as Nações Unidas, organizações similares regionais, como as vinculadas à Organização dos Estados Americanos (OEA), e organizações de cooperação de determinados países como a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos.
Um dos círculos mais discretos, mas não menos importante, é o círculo do poder científico, constituído por organizações científicas internacionais e muitas universidades de países mais avançados.
O círculo do poder ideológico, constituído por verdadeiros impérios de comunicação como a CNN nos Estados Unidos e a Rede Globo no Brasil, é capaz de destruir antigas identidades, criar novos símbolos e moldar percepções, decisões, ações e até juízos de valor. Os atores que mais se beneficiam dos círculos de poder da nova ordem mundial são as corporações transnacionais, que integram o círculo do poder econômico, razão pela qual as novas “regras do jogo” do regime de acumulação da época histórica emergente estão sendo estabelecidas.
Emergência de uma sociedade civil global para gerenciar o desenvolvimento sustentável?
Esforços da magnitude das tentativas de estabelecer o novo regime de acumulação de capital e o Estado-rede supranacional ocorrem necessariamente em meio a muitas contradições, que inspiram outras iniciativas que visam interpretá-las e reduzir suas conseqüências, quando não é possível eliminá-las. Por isso, hoje também se percebe o início, ainda que tímido, da formação de uma sociedade civil global (Walzer 1995), que surge dentro de um novo tipo de espaço público, uma espécie de Ágora Grega moderna (Baugarten 2001), onde até a ciência é alvo de um controle social ampliado (Nowotny et al. (2001:201-214).
Muitas das tendências da chamada globalização estão inspirando reações contrárias a sua consolidação (Mander e Goldsmith 1996). Tais reações têm origem principalmente na revolução sociocultural iniciada nos anos 60, que agora se materializa através de organizações como a Anistia Internacional, mecanismos como a Convenção da Biodiversidade e o Protocolo de Kioto, centros de monitoramento global como o World Watch Institute (WWI) e um alto número de diferentes tipos de organizações não-governamentais (ONGs) internacionais.
É neste contexto que o conceito de desenvolvimento sustentável está sendo institucionalizado para permear iniciativas nacionais, regionais e globais de desenvolvimento. A preocupação da sociedade civil emergente inclui todas as formas de vida na Terra. O desafio ecológico (Lubchenco 1998) atual emerge de uma trama de relações antropogênicas que só nossa ação coletiva e solidária (Röling 2001), sob a influência de uma cultura do cuidado (Busch 2001), do preocupar-se com “o outro” (Bawden 2001), pode transformar nossa vulnerabilidade atual em sustentabilidade futura. A sociedade civil está assumindo o desafio ecológico como uma preocupação central da sua intenção de influenciar o futuro do Planeta.
Para enfrentar e superar as conseqüências da perda de legitimidade da democracia representativa, que se debilita cada vez mais com a “redução seletiva” da soberania e autonomia do Estado-nação, a sociedade civil global emergente tende a consolidar-se como um conjunto semi-estruturado de redes de democracia participativa (Busch 2000). Estas redes monitoram o Estado-rede capitalista supranacional, promovem a justiça social, geram bens públicos internacionais, criam mecanismos institucionais para proteger os mais débeis e tentam democratizar tanto o Estado moderno como os mecanismos supranacionais da nova ordem corporativa transnacional, entre outras funções. Seu desempenho, todavia é muito variado, e está muito longe de reduzir as angústias e atender às aspirações da maioria das sociedades perplexas e vulneráveis.
Estas redes de democracia participativa em formação ainda não se consolidaram realmente como redes. A maioria dos movimentos sociais e culturais que as originaram se configuram geralmente de forma temática e territorialista: as mulheres promovendo apenas a questão de gênero, os defensores dos direitos humanos satisfeitos apenas em denunciar os abusos a estes direitos, os ambientalistas intervindo apenas para salvar a fauna e a flora, etc. Todavia, estas iniciativas absolutamente imprescindíveis não estão conectadas entre si. A humanidade está se acomodando quanto à sua jornada rumo ao futuro, sob a crença de que existe apenas um trem para chegar lá, o trem da globalização neoliberal.
A sociedade civil global emergente critica certas características e tendências do processo de globalização, mas geralmente não questiona o rumo do trem. Limita-se a reivindicar a inclusão de mulheres nos vagões, a introdução de plantas e animais para serem reproduzidas no futuro e condições humanas aceitáveis para a viagem, parecendo que é suficiente apenas imprimir uma face feminina à jornada, uma cor verde ao trem e bancos confortáveis para os passageiros. O conjunto dos movimentos sociais não se preocupou em negociar e propor uma racionalidade ecológica, contrária às racionalidades instrumental e econômica prevalecentes, para transformar as relações assimétricas de poder que há tempo determinam a lógica do processo de criação, distribuição e apropriação da riqueza. Uma das evidências mais preocupantes e assustadoras da continuidade deste estado de coisas é o crescente número de programas de “combate à pobreza” que se baseiam na mesma falsa premissa de que para extinguir o fenômeno é suficiente trabalhar apenas com os que já são pobres, sem desafiar nem alterar a atual forma de gerar e distribuir a riqueza. Obviamente, uma falsa premissa leva a falsas promessas e soluções inadequadas.
Considerando que a economia emergente se alimenta do modelo de crescimento econômico com exclusão social (Dupas 2000), o trem da história está rodando rumo a um abismo global, que só a sociedade civil global pode evitar, se for capaz de imaginar e propor outro trem rumo a um futuro diferente e melhor do oferecido pelo trem da exclusão criado para atender aos interesses das corporações transnacionais.
Emergência de um novo modo de geração de conhecimento
Uma nova época estabelece um sistema de idéias, que geralmente exige um modo particular de geração de conhecimento. Durante a época histórica do industrialismo, o sistema de idéias criado sob a influência de a visão mecânica de mundo forjou o modo clássico de geração de conhecimento. As características deste modo clássico e as conseqüências negativas para o desenvolvimento praticado sob sua influência estão sob questionamento inexorável desde a década de 60. Isso ocorre no contexto da revolução sociocultural, que no nível macro criticou os pilares da civilização ocidental e desafiou os valores da sociedade industrial de consumo, questionando também as formas dominantes de geração, distribuição e apropriação da riqueza.
No conjunto das análises críticas realizadas a partir da década de 60, a ciência emergiu como fator tanto de desenvolvimento como de desigualdade. As características do modo clássico de geração de conhecimento passaram a ser examinadas para revelar os seus limites e distorções. De fato, a segunda metade do século XX assistiu a queda de vários paradigmas científicos e de desenvolvimento, e o surgimento de iniciativas para construir novos modos de interpretação e de intervenção, inclusive para a geração de conhecimento.
Com isso, a ciência praticada sob a tradição filosófica conhecida como Positivismo abre espaço para a emergência de novas premissas ontológicas (sobre a natureza da realidade), epistemológicas (sobre a natureza do conhecimento), metodológicas (sobre o método e a natureza do indagar) e axiológicas (sobre os valores e a natureza da intervenção). O construtivismo, em sua versão associada à teoria crítica, é uma das alternativas emergentes que ganha cada vez mais legitimidade, por seu potencial para a participação da sociedade em geral e os atores do desenvolvimento em particular, com profundas e positivas implicações para iniciativas de mudança institucional.
No futuro próximo, a humanidade contará com o modo clássico e o modo emergente (contexto-cêntrico) de geração de conhecimento, que ocupará os espaços que o primeiro não consegue, pois as características que são responsáveis pela contribuição do modo clássico limitam suas incursões na complexidade da realidade. As diferenças e complementaridades de ambos podem ser deduzidas a partir das premissas de cada um nas dimensões ontológica, epistemológica, metodológica e axiológica associadas ao esforço de geração e apropriação de conhecimento. Apesar de construída originalmente para o caso dos paradigmas científicos, a presente síntese é também válida para inspirar e orientar diferentes modos de interpretação e intervenção:
Em sua dimensão ontológica, o modo clássico (positivista) assume que a realidade existe de forma objetiva, independente de nossa percepção, e que a missão da ciência é descobrir esta realidade como ela “realmente” é, para que sejamos capazes de descrevê-la, predizê-la, controlá-la e explorá-la. Sob estas premissas, a realidade é apenas aquela que pode ser vista, pesada, medida e contada; enfim, traduzida à linguagem matemática.
Ao contrário do objetivismo do modo clássico, o modo emergente (construtivista) assume um contextualismo onde não existe uma senão múltiplas realidades, todas dependentes das diferentes percepções dos diferentes grupos de atores sociais. Não nega a existência do que chamamos de “concreto”, mas revela que nosso acesso ao “concreto” ocorre de forma intermediada pelos significados que lhe atribuímos culturalmente. Também assume que se a realidade é socialmente construída pode ser socialmente transformada. Sob este conjunto de premissas, além da “realidade dura” (hard reality) dos “fatos concretos” (hard facts) existe uma “realidade branda” (soft reality) constituída pela trama de relações, interações, conexões, impactos e implicações, que são inclusive fontes de significado para os “fatos concretos” da referida “realidade dura”
Em síntese, o modo clássico é apropriado para identificar e descrever os fatores responsáveis pelas regularidades dos fenômenos físicos e biológicos que existem independentes da intervenção humana. Já o modo contexto-cêntrico é relevante para identificar e interpretar as diferentes realidades construídas pelas diferentes percepções dos diferentes grupos de atores sociais, incluindo os fenômenos “concretos” cuja compreensão dependa dos significados culturais a eles atribuídos.
Em sua dimensão epistemológica, o modo clássico assume que o importante é conhecer as “leis naturais” que regem o funcionamento da realidade, na natureza e na sociedade. Também assume que o todo está contido nas partes, o que permite dividir o todo em suas partes constituintes para conhecer cada uma em seus mínimos detalhes, o que torna possível explicar o todo a partir de sua menor parte. No entanto, o pesquisador deve agir de forma objetiva e distante do “objeto” e do “contexto” de sua pesquisa para assegurar que seus resultados são a expressão da “verdade” que necessitamos conhecer.
Ao contrário do reducionismo do modo clássico, o modo construtivista assume um holismo onde o relevante é conhecer os processos de interação através dos quais os diferentes grupos de atores sociais do desenvolvimento constroem suas diferentes percepções da realidade. De igual forma sistêmica, também assume que o conhecimento das partes é insuficiente para compreender a dinâmica do todo, o que exige conhecer as relações entre as partes, entre estas e o todo e entre o todo e as partes. O todo não está contido nas partes; sua dinâmica é uma propriedade emergente: surge da interação entre as partes, não se reproduzindo de forma isolada em nenhuma delas.
Em resumo, o modo clássico é imprescindível para gerar conhecimento especializado sobre diferentes partes específicas da realidade, mas é o modo contexto-cêntrico que identificará e explicará a trama de relações entre as partes do todo, responsáveis por sua dinâmica geral, seus paradoxos e suas contradições.
Em sua dimensão metodológica, o modo clássico assume que o método apropriado é aquele que realiza uma assepsia ideológica dos valores, interesses e compromissos do pesquisador e dos atores do contexto da pesquisa. Por isso, o método experimental, as técnicas estatísticas e qualquer estratégia que permite traduzir a realidade à linguagem matemática são ideais para gerar conhecimento objetivo e, portanto, verdades científicas válidas.
Ao contrário, o modo construtivista assume como apropriados os métodos interativos que permitem ao pesquisador incorporar o contexto e seus atores como parte integral da pesquisa. Com isso, a geração de compreensão inclui o entendimento de certos processos, relações e conexões que ocorrem no contexto da pesquisa, que só o conhecimento tácito dos atores locais pode complementar o esforço de pesquisa e aumentar o grau de validez de seus resultados e impactos.
Em resumo, o modo clássico é imprescindível para identificar e descrever fenômenos que independem da história e do contexto, onde sua contribuição não exige interpretações associadas à intervenção humana, enquanto o modo contexto-cêntrico é indispensável para penetrar o mundo dos fenômenos que envolvem gente, onde a interação do pesquisador com os atores do contexto da pesquisa é obrigatória, para a participação destes na interpretação de sua realidade.
Em sua dimensão axiológica, o modo clássico assume a neutralidade da prática científica. Sob esta premissa, o método científico (positivista) é suficiente para impedir a penetração de valores, interesses e compromissos do pesquisador e dos atores do contexto, porque nada consegue romper sua barreira de imunidade ideológica. Não há necessidade de negociação associada a valores, porque só o uso dos resultados científicos podem ser manipulados ideologicamente, a prática científica é metodologicamente imune a esta manipulação.
Ao contrário do neutralismo do modo clássico, o modo emergente assume o ativismo frente à necessidade da interação humana para criar consenso sobre a realidade que se quer interpretar, as mudanças que devem transformar a realidade, o conhecimento para interpretar e intervir na realidade e os valores, interesses e compromissos que devem prevalecer no processo. Um paradigma científico gera implicações mais além de sua dimensão técnico-científica, incluindo aspectos políticos, éticos, institucionais, etc. Até a escolha de uma teoria é um processo político, porque toda teoria reflete uma visão de mundo que influencia modos de interpretação e intervenção.
Em síntese, o modo clássico é mais apropriado para intervenções onde os humanos não participam, enquanto o modo contexto-cêntrico assume importância crítica em todos os processos onde valores e interesses humanos estão necessariamente presentes.
Pode-se deduzir, desta comparação, que o modo construtivista de geração de conhecimento, que se poderia chamar de modo contexto-cêntrico, assume um novo contrato social para a ciência, que a compromete mais com a maioria da sociedade, uma ciência com consciência, comprometida com as dimensões humana, social e ecológica, que subordinam o crescimento econômico e o desenvolvimento tecnológico. Suas características essenciais (ver Morin 1984; Gibbons et al. 1994; Nowotny et al. 2001) são:
Conhecimento gerado no contexto de sua aplicação e implicações. Para o modo clássico, o contexto é uma inconveniência, porque inclui mais variáveis do que o pesquisador necessita para trabalhar de forma controlada, razão porque foi inventado o laboratório, para permitir o controle das variáveis escolhidas pelo cientista. Para o modo construtivista o contexto é uma fonte de compreensão insubstituível. Só o contexto pode ajudar ao pesquisador compreender porque o problema existe e porque o mesmo se manifesta na forma como ocorre. Mais além de ajudar no diagnóstico, o contexto oferece também muitas “dicas” para compreender quais das alternativas possíveis para interpretar e gerenciar o problema é a mais apropriada em cada caso particular onde o problema ocorre. O contexto é a chave.
Conhecimento inspirado em problemas complexos. O modo clássico trabalha apenas com problemas simples de pesquisa, enquanto o modo contexto-cêntrico inicia primeiro identificando problemas complexos para a ciência. A complexidade da realidade é a razão da emergência do modo construtivista, enquanto o modo clássico se satisfaz em estudar os problemas de pesquisa isolados da complexidade do contexto de sua ocorrência. Um problema complexo para a ciência pode revelar um grande número de problemas de pesquisa. Trabalhando com problemas simples de pesquisa, o modo clássico realiza uma extraordinária contribuição através de esforços disciplinares, o que não é a fortaleza do modo contexto-cêntrico. Neste enfoque, a monocausalidade e a linearidade assumidas pelo modo clássico são substituídas pela multicausalidade e a não-linearidade típicas dos sistemas complexos e dinâmicos com múltiplas dimensões e funções, que são interdependentes e às vezes contraditórias. A complexidade é a chave.
Esforço transdisciplinar. A complexidade do contexto requer uma compreensão ampla, profunda e sistêmica, impossível de ser gerada com um esforço monodisciplinar, como é típico da atuação do modo clássico. O modo contexto-cêntrico inclui mas transcende às disciplinas disponíveis para incorporar o conhecimento tácito dos atores locais, que conhecem certas interações que ocorrem no contexto e que nem todas as disciplinas juntas são capazes de percebê-las e muito menos de compreender seu múltiplos significados locais. Só a interpenetração dos “saberes” dos especialistas e dos atores locais permite uma interpretação mais próxima da complexidade da realidade. O diálogo é a chave.
Apropriação social do conhecimento. O contexto não é um vazio social, pois é constituído por muitos atores e suas formas de organização. Enquanto o modo clássico exclui a participação destes atores e de suas organizações, o modo emergente os inclui, aumentando o grau de correspondência entre as iniciativas planejadas e o contexto de sua aplicação e implicações. A seqüência mecânica e linear do modo clássico—uns geram, outros transferem e muitos adotam—é substituída pela apropriação social do conhecimento, que ocorre por parte dos atores interessados durante o próprio processo de sua geração. O modo construtivista assume o desenvolvimento como um processo complexo de transformação onde interagem (se encontram de forma convergente, divergente e contraditória) sociedade, cultura e natureza. A interação é a chave.
Reflexividade e compromisso sociais. Enquanto o modo clássico não faz autocrítica, porque se crê neutro, o modo contexto-cêntrico se auto-analisa de forma permanente, além de exigir dos participantes a habilidade de “colocar-se nos sapatos dos outros” para entender sus razões e suas aspirações. Finalmente, conscientes da não-neutralidade das intervenções, os praticantes do modo contexto-cêntrico assumem que o conhecimento gerado contextualmente é um conhecimento socialmente comprometido com o contexto de sua aplicação (dimensão prática) e implicações (dimensão ética). O compromisso é a chave.
Controle social ampliado. No modo clássico, a avaliação técnico-científica dos “pares” é suficiente para definir a qualidade dos resultados, numa análise da prática científica que não inclui seus impactos no contexto de sua aplicação e implicações. No modo emergente os critérios técnico-científicos são imprescindíveis mas insuficientes para definir a validez dos impactos do conhecimento gerado e aplicado. Se para cada modo de intervenção corresponde um modelo de avaliação, a emergência do modo contexto-cêntrico requer a criação de modelos sui generis de avaliação, que reconheçam suas características e valorizem sua contribuição diferente. Como resultado, outros atores do contexto serão também avaliadores, e a matriz de avaliação incluirá outros tipos de critérios—ambientais, econômicos, políticos, sociais, institucionais, éticos, etc.—que interessam à sociedade em geral e aos atores locais em particular. Ao contrário da indiferença do modo clássico, causada por sua falsa neutralidade frente aos valores e interesses humanos, o modo construtivista é deliberadamente inclusivo do bem-estar da maioria. A sociedade é a chave.
Que lance a primeira pedra, aquele que não estiver vulnerável frente a estes processos globais de mudança. Estamos todos vulneráveis; o que varia entre todos é o grau de vulnerabilidade, porque varia a capacidade de interpretar a gênese de sua vulnerabilidade e a forma como ela se manifesta, o acesso a diferentes tipos de recursos, a capacidade para conceituar sustentabilidade, a capacidade para desenvolver estratégias, a capacidade para gerenciar a incerteza e a instabilidade, etc.
Por isso, mais de 70% de todos os processos de mudança realizados no mundo, nas últimas duas décadas, usando reengenharia, planejamento estratégico e qualidade total fracassaram (Hussey 1997a, 1997b). Estes modelos instrumentais de mudança carecem de uma dimensão epistemológica que lhes permita teorizar sobre o momento histórico do mundo. Os mais bem sucedidos foram aqueles que pelo menos construíram cenários alternativos sobre o futuro.
QUO VADIS MUDANÇA INSTITUCIONAL?
Premissas para a negociação de cenários para a construção do futuro
Um dos sonhos da humanidade é voltar ao passado para mudar certos fatos históricos de tal forma que o presente fosse diferente e melhor. Embora isso seja impossível com relação ao presente, o sonho é totalmente possível com relação ao futuro, porque este está sendo construído hoje. O passado do futuro é o presente.
A melhor forma de controlar o futuro é inventando-o. O futuro não existe, pronto e melhor, esperando por nós numa esquina do tempo. Nosso futuro é construído, diariamente, pelas percepções, decisões e ações que prevalecem na trama das relações que influenciam o desenvolvimento mundial. Não existindo, o futuro não pode ser previsto. Mas é possível compreender a gênese, natureza e implicações das tendências que estão moldando o futuro. Com isso é possível, coletivamente, fortalecê-las, transformá-las ou abortá-las, já que estas são socialmente construídas pelos valores, interesses e compromissos de atores humanos. Para lidar com a incerteza do futuro, a técnica de construção de cenários é uma das mais indicadas (Van der Heijden 1996), e pode ser aplicada para os mais variados setores, temas e atividades (Castro et al. 2001). Embora seja fácil o acesso a esta técnica, não é fácil imaginar as premissas que permeiam as iniciativas de construção de cenários. Raramente estamos conscientes dos paradigmas e teorias que influenciam a coerência e correspondência de nossos modos de interpretação e intervenção.
Aqui são compartilhadas algumas premissas derivadas das três visões de mundo em conflito no contexto da mudança de época—cibernética, mercadológica e contextual. Elas estão inspirando e orientando as mudanças globais que estão forjando a nova época. Sob o enfoque teórico da mudança de época, qualquer mudança institucional pode ter pelo menos três cenários possíveis, aqueles moldados por cada uma das três visões de mundo que estão influenciando nossas percepções, decisões e ações. Cada uma das visões de mundo tem origem numa das revoluções—tecnológica, econômica e sociocultural—que estão gerando as mudanças globais atuais. Como as mudanças institucionais realizadas sob a influência de cada uma delas apontam a futuros completamente diferentes, isso torna apropriado tomar em consideração estas visões de mundo nos esforços de construção de cenários. O uso de premissas derivadas de cada uma das visões de mundo tem a propriedade de aportar coerência às propostas de mudança institucional, que estarão em correspondência com determinadas realidades emergentes, igualmente influenciadas pela mesma visão de mundo. A seleção de premissas orientadoras é um processo ético e político, porque implica tomar decisões associadas a valores, interesses e compromissos. Mas isso é inevitável, pois se trata da construção do futuro, que não é uma questão apenas técnica senão principalmente política e ética.
Todo gerente atua sob a influência de uma visão de mundo, que molda uma imagem de organização (Morgan 1986) que, por sua vez, forja sua visão do que é a mudança institucional e para que serve. Tudo isso se reflete no modelo de gestão da mudança institucional. Mas geralmente, nada disso está explícito nos processos de mudança, porque nem sempre existe um esforço intelectual sobre a natureza, rumo e prioridades do processo. A maioria se limita a seguir as fórmulas e receitas instrumentais famosas do momento. Todavia, seria ético e conseqüente negociar premissas para inspirar e orientar o processo.
Cenário-1: As máquinas no comando (coerência e correspondência para a eficiência)
O mundo é uma máquina — um sistema de informação auto-regulado (metáfora-guia).
A organização é uma máquina de produzir bens e serviços.
A mudança institucional é um instrumento para fazer ajustes e resolver problemas de eficiência.
A realidade é “objetiva” e existe de forma independente de nossa percepção.
Na mudança, a realidade da organização deve ser conhecida para ser melhor controlada.
A intervenção é um processo técnico e racional e, portanto, neutro.
O futuro é uma extensão do presente e é, portanto, único, previsível e certo.
A realidade deve ser compartimentalizada para ser compreendida através da análise de suas partes.
Tudo que é importante pode ser quantificado—traduzido para a linguagem matemática.
Os seres humanos são “racionalistas” e decidem com a razão, não com o coração.
Existe sempre “a melhor forma” de resolver qualquer problema ou de realizar uma tarefa.
Existe sempre “a resposta correta” para qualquer pergunta.
Para cada efeito existe apenas uma causa.
Para a máquina, todos os insumos são “recursos”: naturais, financeiros, materiais, humanos, etc.
A estabilidade do contexto é a base do planejamento e da gestão.
Os fatores de aumento da eficiência são predição, controle, precisão, disciplina e quantificação.
Os modelos de intervenção mais eficientes são os modelos de oferta que permitem o controle total.
A racionalidade instrumental prevalece nos processos de mudança institucional bem sucedidos.
Os engenheiros são os melhores gerentes, estrategistas e facilitadores da mudança institucional.
O gerente da organização deve ser o único estrategista da mudança institucional.
O objetivo superior da mudança é a eficiência máxima e no curto prazo é atingir objetivos e metas.
Toda mudança visa construir uma nova coerência para a eficiência em correspondência com a lógica formal.
A globalização é o novo “trem do progresso”; adaptemo-nos a suas tendências sem questioná-las.
No desenvolvimento, o Estado prevalece sobre o mercado e o setor público sobre o privado.
A tecnociência é um instrumento para aumentar a eficiência produtiva: ciência para a eficiência.
O conhecimento é “algo objetivo” que pode ser produzido, transferido, adquirido e absorvido.
O fator chave da aprendizagem é a repetição.
Os pobres são pobres porque não são eficientes; os excluídos são os ineficientes da sociedade.
A organização sustentável é a organização eficiente.
Cenário-2: O mercado no comando (coerência e correspondência para a competitividade)
O mundo é um mercado (metáfora-guia).
A organização é um provedor de bens e serviços.
A mudança institucional é um instrumento para resolver problemas de qualidade e competitividade.
A realidade é “objetiva” e evolui de acordo com as “leis” da natureza e do mercado.
Na mudança, as realidades do mercado e da organização devem ser conhecidas para ser melhor previstas.
O futuro emerge da interação entre a oferta e a demanda e pode ser previsto pelas leis do mercado.
A existência é uma luta pela sobrevivência numa arena onde vence o que elimina seus competidores
Na lógica da sobrevivência a competição é a chave do sucesso: mais egoísmo e menos solidariedade.
Os seres humanos são egoístas e decidem de forma utilitária e pragmática para levar vantagem em tudo.
Na realidade do mercado as transações comerciais prevalecem sobre as relações sociais.
O mercado é a fonte mais importante de sinais sobre o futuro para orientar decisões no presente.
O mercado é o melhor árbitro do processo de produção, distribuição e apropriação da riqueza.
A economia é independente da política; suas decisões técnicas prescindem da intervenção do Estado.
Para o mercado todos os insumos são formas de “capital”: natural, social, humano, intelectual, etc.
A racionalidade econômica prevalece nos processos de mudança institucional bem sucedidos.
Os modelos de intervenção mais competitivos são aqueles centrados na demanda e nos clientes.
Os economistas são os melhores gerentes, estrategistas e facilitadores da mudança institucional.
Os analistas da organização devem ser os únicos estrategistas da mudança institucional.
O crescimento econômico é o objetivo do desenvolvimento.
O objetivo superior de longo prazo da mudança é a acumulação e o de curto prazo é o lucro máximo.
Toda mudança visa construir uma nova coerência em correspondência com o mercado.
A globalização é o único caminho para o futuro; adaptemo-nos a suas tendências sem questioná-las.
As “regras transnacionais” do jogo do desenvolvimento são mais relevantes do que as “regras nacionais”.
O “livre” mercado e a “livre” competição solucionam os graves problemas da sociedade e do Planeta.
Os pobres são os mais beneficiados com a liberalização, desregulamentação e privatização.
A desigualdade social é “funcional” para o desenvolvimento das sociedades.
Na mudança, o mercado prevalece sobre o Estado; o setor público é o problema e o privado é a solução.
A gestão pública competitiva é aquela que imita a gestão das empresas privadas.
A tecnociência é um instrumento para aumentar a competitividade/qualidade: ciência para o lucro.
O conhecimento é “algo objetivo” que pode ser produzido, processado, comprado, vendido, etc.
O fator chave da aprendizagem é a imitação (benchmarking das “melhores práticas”).
Os pobres são pobres porque não são competitivos; os excluídos são os não-competitivos da sociedade.
A organização sustentável é a organização competitiva.
Cenário-3: A sociedade no comando (coerência e correspondência para a sustentabilidade)
O mundo é uma trama de relações entre diferentes formas de vida (metáfora-guia).
A organização é um sistema complexo e dinâmico que inclui conflitos e contradições.
Uma organização é um facilitador de mudança e desenvolvimento.
A mudança é um processo complexo de aprendizagem por descobrimento onde a organização se transforma para transformar.
A realidade é socialmente construída, porque é dependente de nossa percepção, decisões e ações.
Se é socialmente construída, a realidade pode ser socialmente transformada.
Nosso acesso ao “concreto” ocorre de forma intermediada pelos significados culturais que lhe atribuímos.
A realidade inclui mas transcende o mercado, incluindo todas as formas de vida no Planeta e suas interações.
A realidade é o que nosso método de observação—visão de mundo—nos permite perceber.
O objetivo da mudança é compreender para transformar sob o poder do argumento não o argumento do poder.
Na mudança, primeiro os fins depois os meios.
Um problema complexo não é superado sob a mesma percepção e com os mesmos métodos que o geraram.
O futuro não existe; é construído diariamente a partir de nossa percepção, decisões e ações compartilhadas.
A melhor forma de controlar o futuro é inventando-o.
O crescimento econômico é possível com individualismo egoísta; o desenvolvimento só com solidariedade.
Os humanos são cidadãos, talentos humanos com imaginação e criam além de seu conhecimento prévio.
A racionalidade ecológica prevalece nos processos de mudança bem sucedidos.
Os modelos de intervenção para a sustentabilidade são sistêmicos e centrados no contexto.
A liderança, gestão e facilitação da mudança institucional são desafios para equipes, não para indivíduos.
O objetivo superior da mudança é a melhoria das condições/nível/qualidade de vida de todas as formas de vida.
Toda mudança visa construir uma nova coerência em correspondência com a dinâmica do contexto.
As tendências da globalização são construídas por diferentes percepções, decisões e ações.
Nenhuma tendência é irreversível, e pode ser socialmente transformada.
A inovação emerge da interação social.
O global e o local são faces diferentes da mesma moeda; cada uma é definida em relação à outra.
A realidade é complexa, e não pode ser reduzida a falsas dicotomias (Estado vs. mercado; público vs. privado).
A complexidade, a incerteza e a instabilidade são as premissas do planejamento e da gestão contextuais.
A tecnociência é praticada por humanos, e a sociedade deve controlar sua natureza, rumo e prioridades.
Dados são símbolos carentes de significado.
Quando são articulados e ganham significado, os dados se transformam em informação.
O Conhecimento é um estado cambiante de compreensão que emerge da experiência e da abstração.
A sabedoria é traduzida pelas decisões políticas e éticas tomadas a partir da compreensão existente.
Aprende-se melhor fazendo, indagando, buscando, debatendo, interagindo e sendo.
Os pobres são um indicador vivo de que existe o fenômeno da pobreza.
A pobreza é um subproduto da lógica do processo de produção, distribuição e apropriação da riqueza.
A desigualdade emerge de relações assimétricas de poder institucionalizadas em favor dos mais poderosos.
O desenvolvimento como transformação emerge de uma rede de relações entre sociedade, cultura e natureza.
A organização sustentável é a organização cambiante.
Estas listas são necessariamente genéricas, incompletas, imperfeitas e provisórias. Ainda assim elas podem ser extremamente úteis, pois elas estimulam os atores interessados a negociar e construir suas listas de premissas específicas. Na construção de cenários, é relevante perceber que uma visão de mundo gera uma coerência institucional muito diferente da coerência criada sob outra visão de mundo. Se o esforço é feito de forma participativa, isto pressiona os líderes, gerentes, estrategistas e facilitadores para negociar uma visão de mundo, cujas premissas vão articular os valores, interesses e compromissos da mudança institucional.
Os protagonistas da construção de cenários devem perguntar: quais seriam as premissas mais inspiradoras para orientar suas iniciativas de mudança, se cada um dos cenários fosse influenciado por uma das visões de mundo em conflito no contexto da atual mudança de época. A partir daí, qualquer que seja o setor, tema ou atividade sob análise prospectiva deve ser submetido à aplicação das premissas correspondentes a cada uma das visões de mundo, o que resultará em cenários diferentes e eventualmente incompatíveis entre si. A consciência ética gerada no exercício é tão poderosa que a natureza, rumo e prioridades do próprio processo de mudança serão influenciados pelas premissas que o fundamentam. Cedo ou tarde, a percepção, decisões e ações dos que participam diretamente do processo de mudança institucional refletirão em maior ou menor grau as premissas que o orientam, dando-lhe uma coerência difícil de ser obtida de outra forma, com o mesmo grau de legitimidade possível desta maneira. Estas mesmas premissas servem para gerenciar muitos dos conflitos que emergem nos processos de mudança institucional, porque assumem a função de critérios para a negociação.
Finalmente, é importante perceber que as visões de mundo que são pluralistas permitem importar daquelas que são reducionistas alguns de seus elementos orientadores, exceto suas premissas. Por exemplo, a visão contextual de mundo é inclusiva das diferentes dimensões da realidade, enquanto as outras duas visões são unidimensionais, porque a mecânica privilegia apenas a dimensão de eficiência e a visão econômica promover apenas a importância do mercado. Considerando que as visões mecânica e econômica têm em comum a ênfase nos meios, enquanto a visão contextual enfatiza primeiro os fins, esta última permite importar o conceito de eficiência da visão mecânica e os conceitos de competitividade e qualidade da visão econômica mas, numa hierarquia de objetivos, estes conceitos são subordinados a objetivos-fins superiores. Além disso, a visão contextual adiciona os conceitos de sustentabilidade e equidade para promover um maior equilíbrio na matriz de critérios para avaliar o desempenho das organizações e suas iniciativas de mudança institucional.
CONCLUSÃO
E agora José: arena ou Ágora?
Antes era o caos. (Depois) No princípio, Deus criou o ser humano e o colocou no Jardim do Éden, sem acesso à Árvore do Conhecimento; mas ele rompeu o monopólio da informação estabelecido por Deus, que o castigou com a pena de morte, tornando-o mortal e obrigando-o a caçar, pescar e coletar alimentos para viver. Depois ele descobriu o fogo, a pedra e o ferro, construiu armas de guerra e criou o conceito de arena para lutar contra si mesmo. Então, ele inventou a agricultura e a irrigação, descobriu o excedente da produção e o comercializou para aumentar sua riqueza e poder. Um dia, um egoísta ergueu uma cerca, e muitos, ingênuos e inocentes acreditaram na propriedade privada—a fonte da desigualdade que nos dividiu entre os que têm e os que não têm. Nasceu então a civilização do ter, não do ser. Assustado, Deus enviou o seu filho predileto—Jesus Cristo—para salvar seu experimento terrenal, mas sua intervenção não teve um final feliz. A desordem continuou e aumentou. Preocupados com a desordem social global, Francis Bacon, Thomas Hobbes e Adam Smith propuseram, respectivamente, sem sucesso, a ciência, o Estado e o mercado, como guardiões—Leviatãs—da ordem social. Mas Charles Darwin ficou famoso criando a Teoria da Evolução das Espécies, onde o evolucionismo supera o criacionismo, matando a Deus. Num mundo sem Deus, o ser humano inventou o capital, a mercadoria, o lucro e a acumulação, consolidando o capitalismo durante o industrialismo e forjando o nascimento da corporação transnacional. Porém nasceu Karl Marx, que criticou o capitalismo, inventou o socialismo sonhou com o comunismo e morreu por sua causa, que não chegou a ser realizada. Mas a época do industrialismo está morta; o computador já substituiu a chaminé das fábricas, e a realidade virtual já supera a realidade real com o apoio da tecnologia digital. Então, Thomas Kuhn propôs a teoria da ascensão e queda dos paradigmas, Francis Fukuyama proclamou o fim da história, Daniel Bell anunciou o declínio da sociedade industrial e Manuel Castells revelou a emergência da sociedade-rede. Por isso, as corporações transnacionais debilitaram o Estado-nação e agora querem uma ordem mundial só para elas, onde o mercado comande a ciência, o Estado, a sociedade civil e o Planeta, um mundo onde elas tenham só direitos e nenhuma obrigação. Deus está aflito. Ele quer enviar seu filho outra vez, mas tem uma dúvida; antes considerado um subversivo, ele seria hoje acusado de terrorista. Jesus Cristo enfrentaria as corporações transnacionais, a versão moderna da Monarquia absolutista que exerce a forma mais autocrática de poder no evoluído experimento de seu Pai. A humanidade precisa de Ágoras (antiga forma de Assembléia Grega) para a prática da democracia participativa, pois a democracia representativa está forjando um governo mundial, sem Presidente nem eleições, onde os que decidem não são eleitos e os que são eleitos não decidem. Mas a atual globalização econômica e financeira está fragmentando o mundo em arenas comerciais, onde prevalece a lei do cada um por si, Deus por ninguém e o Diabo contra todos. Agora, sem fé, sem espírito nem sabedoria, o ser humano criou os problemas antropogênicos que ameaçam a vida no Planeta, o que a sociedade civil, de forma ainda atomizada, assistemática, territorialista e ingênua luta para evitar. Voltaremos ao princípio de tudo? Talvez. A menos que sigamos o conselho de Dom Hélder Câmara, o já falecido Bispo de Olinda, Pernambuco, e sonhemos, o mesmo sonho, juntos: o início de uma nova realidade baseada na solidariedade. Do contrário, uma catástrofe anunciada. Será o caos? Pequenos grupos de excluídos já se integram para excluir os que os excluem, sem coordenação entre grupos, de forma caótica, até que a minoria sobrevivente decida abandonar a lógica da acumulação. Depois, não se sabe. Haverá um “depois”? |
A história da humanidade, em qualquer de suas versões—filosófica, religiosa, material, etc. —é uma história de construção, fragmentação e reconstrução de coerências e correspondências, que ficam obsoletas a cada época histórica. Diferentes modos de interpretação e de intervenção coexistem em cada época, mas uns dominam e muitos são subordinados, dentro de uma hierarquia estabelecida por relações assimétricas de poder, que são geralmente institucionalizadas em favor dos mais poderosos em seu intercâmbio com os mais débeis. Como concluiu Rousseau, em seus estudos para escrever O Contrato Social: o mais forte não o será sempre para continuar sendo amo e senhor, se não transforma sua força em direito e a obediência em dever.
Numa mudança de época, antigas relações assimétricas de poder são destruídas e novas são criadas. Com sua marca registrada—incerteza, instabilidade, descontinuidade, desorientação, fragmentação, insegurança, perplexidade e vulnerabilidade, esta mudança de época está gerando as doenças do Século XXI—estresse e depressão (Lash 1986), ambas originadas pelo contexto cambiante. Nações e organizações estão entrando numa busca frenética por um futuro diferente e melhor, mas são reféns da competição entre diferentes visões de mundo que apontam a realidades diferentes e nem sempre favoráveis para a maioria. A Terra e seus frágeis habitantes são hoje reféns da falta de sabedoria da espécie humana. Nós conseguimos avanços tecnológicos impressionantes, mas quanto mais avançamos nesta área menos conseguimos ser o que mais falta nos faz: ser mais humanos. Tudo isso pode se refletir numa mudança institucional, considerando que as organizações refletem em maior ou menor grau as principais características da organização política, socioeconômica e institucional da sociedade que as cria, financia, muda e eventualmente extingue.
Nunca antes na história da humanidade, tantos estiveram tão perplexos e vulneráveis. A razão é que outra vez estamos experimentando uma mudança de época. Neste momento, a sociedade deve impedir que “os que sabem fazer” —cientistas, consultores, especialistas, etc. —sejam os únicos decidindo “o que deve ser feito”. O mesmo é verdade dentro das organizações, num processo de mudança institucional. Em termos de anterioridade, o primeiro momento da mudança deve concentrar-se nos fins, e deve envolver todos os que integram à organização, assim como seus usuários e parceiros. Assim, a premissa orientadora da mudança institucional deve ser externa, centrada no contexto cambiante. A sustentabilidade não existe; ela emerge, ascende, declina e eventualmente se extingue num processo de negociação permanente com os atores do desenvolvimento. O que existe é uma busca permanente por coerência e correspondência.
As organizações sustentáveis serão as organizações cambiantes, capazes de monitorar de forma permanente as mudanças que transformam seu contexto relevante e de renovar sempre que necessário seus modos de interpretação e de intervenção. O contrário já é bastante conhecido: o mimetismo institucional onde a moda é imitar, é proibido criar. A maioria das mudanças realizadas na América Latina são centradas mais na forma (mudança na estrutura) do que na substância (mudança nas “regras do jogo”). Na eterna guerra entre a aparência e a essência, a aparência continua ganhando a maioria das batalhas.
Historicamente, nos deparamos com três visões de mundo em conflito, que oferecem três coerências para construir paradigmas de desenvolvimento, três cenários possíveis, três futuros diferentes, três referências para a mudança institucional. Qual delas prevalecerá nas iniciativas de mudanças? Espera-se que prevaleça a visão contextual, onde a racionalidade comunicativa constrói uma correspondência com a sustentabilidade de do Planeta. Esta visão de mundo nos pressiona para a prática do enfoque de desenvolvimento de (um país, comunidade, organização, etc.), incluindo o desenvolvimento humano e social dos atores locais, ao contrário de desenvolvimento em, que não se preocupa com estas dimensões. Se prevalecem referências associadas à visão cibernética, a racionalidade instrumental dominará a mudança, gerando uma cultura indiferente à história e ao contexto, comprometida apenas com a coerência para a eficiência. Se prevalece a visão mercadológica, a racionalidade econômica formará gladiadores indiferentes à miséria humana, ávidos para lutar nas arenas onde vencem os que eliminam o maior número de competidores usando o argumento do poder e não o poder do argumento. Mas, um futuro melhor virá através da construção de arenas ou Ágoras? Uma melhora virá com a proliferação de Ágoras e a globalização da solidariedade, pois no desenvolvimento somos anjos de uma asa; não conseguiremos voar senão o fazemos abraçados. Na globalização, a metáfora da arena não constrói uma aldeia global, pois não cria integração. A globalização gera integração tecnológica, interdependência econômica, fragmentação política e desintegração social. Até quando? A que custo?
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Citação correta: De Souza Silva, José. (2004). “A mudança de Época e o Contexto Global Cambiante: Implicações para a mudança institucional em organizações de desenvolvimento”, pp. 65-110, em Suzana Valle Lima (Org.) Mudança Organizacional: Teoria e Gestão. Brasília, Brasil: Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Engenheiro Agrônomo nascido em Areia-PB, com Mestrado em Sociologia da Agricultura e Ph.D. em Sociologia da Ciência e Tecnologia, Universidade de Kentucky, EUA. Ele é ex-Gerente da Secretaria de Gestão Estratégica (SGE) da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), Brasília-DF, onde liderou o processo de inovação institucional em 1990-1993; ex-Gerente da Rede Novo Paradigma para a Inovação Institucional na América Latina, do International Food Policy Research Institute (IFPRI); é Pesquisador III da EMBRAPA, na “EMBRAPA Algodão” (Campina Grande-PB), desde Setembro de 2006, liderando nacionalmente um projeto para estabelecer na EMBRAPA a área de (i) pesquisa das relações Tecnociência-Sociedade-Inovação (TSI) no Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA) e atuar como formador em Gestão da Inovação Institucional.
O desempenho das organizações é uma propriedade sistêmica, que emerge da interação entre os diferentes subsistemas da organização, e das relações deste conjunto com o contexto relevante (suprasistema) onde a organização (sistema) atua, não podendo ser deduzido a partir da análise de qualquer destas partes isoladamente.
A Rede “Novo Paradigma” visa contribuir à construção de uma nova coerência institucional para orientar esforços de pesquisa e de desenvolvimento rural na América Latina, facilitando a construção de capacidades conceituais, metodológicas e culturais para a gestão da inovação institucional.
Uma revisão extensiva sobre a função de uma visão de mundo pode ser encontrada em Aerts et al. (1994).
Esta é a argumentação essencial do movimento do posmodernismo, que reivindica o fim da época histórica do modernismo e o início de uma nova época que, por falta de outro nome, está sendo chamada de época posmoderna (ver, por exemplo, Rosenau 1992).
El Sociólogo Espanhol Manuel Castells denomina a época emergente de “época do informacionalismo”, porque agora a informação é simultaneamente insumo e produto, dando origem inclusive à indústria da informação (Castells 1996).
No presente, somente 3% da humanidade tem acesso à rede INTERNET.
Na Grécia antiga, a Ágora era o espaço público onde muitos dos temas de interesse da sociedade eram debatidos e resolvidos. Apesar de não ser um espaço democrático para a maioria (por exemplo, as mulheres não eram permitidas participar), a Ágora pode ser reeditada de forma diferente para incluir os excluídos pela atual democracia representativa, que na verdade já não representa os interesses da maioria, porque na nova ordem política mundial os eleitos não decidem e os que decidem não são eleitos.
Sobre diferentes aspectos da última mudança de época, quando a época histórica do agrarianismo foi superada pela época histórica do industrialismo, a partir do século XVIII, ver, por exemplo, Hill (1969), Hobsbawm (1969) e Ewen (1977).
Ver, por exemplo, Barnet e Cavanagh (1995); Held (1995); Horsman e Marshall (1995); Korten (1996); Held e McGrew (2000).
Os sete continentes reconhecidos atualmente são: América do Norte, América do Sul, Europa, Ásia, África, Austrália e Antártida. As ilhas do Pacífico, conhecidas como Oceania, não são consideradas como um continente (The TIME Almanac 2000:484).
Aqui nos referimos aos desconectados dos meios que lhes dariam acesso a diferentes tipos de benefícios gerados pelo crescimento econômico e pelo desenvolvimento tecnológico, e não apenas aos desconectados da revolução digital. Isso inclui, por exemplo, os desconectados dos diferentes tipos de políticas, tanto econômicas como sociais (Dupas 2000); Rifkin 2000; De Souza Silva et al. 2001). Inclusive nos Estados Unidos, em 1989, 1% da população possuía cerca de 40% da riqueza dessa nação, e os 20% mais ricos possuíam mais de 80% da riqueza total. Igualmente chocante é o fato de que cerca de 70% da humanidade jamais fez uma chamada telefônica (71% das linhas telefônicas existentes pertencem aos 24 países mais ricos do mundo, que representam apenas 15% da população mundial. Com relação ao acesso à rede INTERNET, a estimativa é que apenas entre 3-6% da humanidade tem acesso. Em 1998, 80% dos usuários de INTERNET procediam dos 24 países mais ricos; em contraste, na Ásia, com 20% da população mundial, somente 1% da população tem acesso à INTERNET.
Ver, por exemplo, Castells (1996); Hoogvelt (1997); Arrighi e Silver (1999); Held e McGrew (2000).
Isso ficou mais claro quando o mundo tomou conhecimento de que o documento do Acordo Multilateral sobre Inversões (AMI) estava sendo formulado em segredo nos países da Organização Econômica para a Cooperação e o Desenvolvimento (OECD), com a participação protagônica dos Estados Unidos, Japão e suas corporações transnacionais. Nas palavras de seus autores, eles estavam formulando a constituição corporativa do mundo. Depois que uma ONG internacional fez a denúncia, o AMI passou a ser discutido no âmbito da OMC.
Ver Capra (1982, 1996); Astley (1985); Miller (1985); Harding (1991); Díaz (1992); Tetenbaum (1998); Wallerstein (1999)..
Ver Berger e Luckmann (1966); Knorr-Cetina (1981); Kloppenburg (1992); Dickens e Fontana (1994); Bentz e Shapiro (1998); Baldwin (2000); Gibbons (2000); Woolgar (2000).
Ver Smircich e Stubbart (1985); Prahalad e Hamel (1994); Chia (1995); Boje et al. (1996); Gergen e Thatchenkery (1996); Kay e Bawden (1996); Hatch (1997); Hussey (1997a, 1997b); Escobar (1998); Franklin (1998a, 1998b); Tasaka (1999); Watson (2000).
Amparados pelo reducionismo da Física Mecânica, os Físicos prometeram explicar o Universo a partir da conhecimento do átomo, da mesma forma que agora os biólogos moleculares estão prometendo explicar tudo a partir do conhecimento do gene.
José de Souza Silva Página 36 A mudança de época
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